CELSO MING
Sem armas nesta guerra
Ontem foi a primeira vez que a Bolsa de Nova York subiu porque aumentou o desemprego nos Estados Unidos. O pressuposto agora é o de que, diante de um configurado desastre na área do trabalho, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) vai despejar uma nova dinheirama nos mercados. Isso intensificaria a guerra cambial porque a desvalorização do dólar obrigaria os outros bancos centrais a intervir para rebaixar suas próprias moedas.
Nessa guerra, a situação da área do euro é particularmente complicada porque o Banco Central Europeu (BCE) não tem mandato para emitir moeda à vontade apenas para defender o euro do jogo cambial de outros países, como Estados Unidos e Japão.
O euro é a moeda comum a 16 países europeus e já não basta a vontade de um poder executivo forte, como o da Alemanha e o da França, para sozinho ou a dois determinar o que seu banco central tem de fazer. O BCE opera a partir das orientações firmadas nos tratados.
Assim, enquanto o Fed, o Banco da Inglaterra e as autoridades do Japão despejam centenas de bilhões para garantir a desvalorização de suas próprias moedas, o BCE fica espiando a valorização do euro.
Seu presidente, Jean-Claude Trichet, faz o que pode com o seu gogó, condenando os culpados e conclamando as autoridades cambiais para que voltem a trabalhar para o equilíbrio das trocas monetárias. Mas não detém os códigos que poderiam acionar seu arsenal cambial.
Paradoxalmente, quando da crise da Grécia, o euro derreteu em relação às outras moedas fortes e todos os membros da área passaram a trabalhar para reerguê-lo. E é essa política de fortalecimento do euro que continua prevalecendo, mesmo depois da intervenção do Banco do Japão há 24 dias para conter a valorização do iene, jogo que provocou a valorização do euro e prejudicou a competitividade do produto de toda a região.
Um cínico diria que este é o momento para deflagrar na Europa uma outra crise da dívida, como a da Grécia. Poderia ser na Irlanda, em Portugal ou na Espanha, candidatos mais expostos a um ataque de confiança. Assim, o euro despencaria sem que nenhum país da área pudesse ser acusado de alimentar a guerra cambial.
De todo o modo, a incapacidade de reação do BCE é também consequência dos problemas de fundamento do próprio euro. É a falta de uma unidade fiscal e política entre os países-membros que o paralisa nessa e noutras situações.
O presidente do Fed, Ben Bernanke, vem emitindo sinais de que prepara uma nova rodada de afrouxamento quantitativo. Trata-se de uma operação de recompra de títulos do Tesouro americano que irá injetar mais dinheiro na economia e, portanto, contribuirá para derrubar as cotações do dólar no câmbio internacional.
A primeira dessas operações de afrouxamento quantitativo aconteceu em 2009, quando o Fed recomprou US$ 300 bilhões em títulos do Tesouro. Outra decisão definiu que os US$ 2 trilhões utilizados em títulos públicos e privados comprados pelo Fed no auge da crise não voltariam para seu balanço, seriam reinjetados no mercado por meio da recompra equivalente de títulos. Diante da baixa recuperação da economia americana e da alta do desemprego, o que o Fed pretende agora é aumentar ainda mais o despejo de recursos no mercado, com objetivo de recuperar o emprego em franca deterioração.
No entanto, o BCE permanecerá atado, incapaz de reagir em defesa do euro.





