CELSO MING
Ideias mortas
Se é verdade que, nesta campanha eleitoral, não existiu debate econômico, como a Coluna de sábado observou, também é verdade que ideias econômicas radicais de esquerda foram agora enterradas por serem consideradas velhas demais ou impraticáveis.
Não dá para dizer que foram enterradas definitivamente, porque defuntos, especialmente se forem ideias, sempre podem ser exumados.
O único candidato à Presidência da República que se comportou como arqueólogo de ideologias do passado foi o simpático Plínio de Arruda Sampaio, que levantou boas risadas das plateias, mas não conseguiu ser levado a sério.
Seu partido, o PSOL, nas eleições presidenciais de 2006 ainda havia arrebatado quase 7% dos votos válidos no primeiro turno, mas desta vez não conseguiu nem 1%. Não dá para dizer que Plínio teve pouca oportunidade para transmitir sua mensagem e para se fazer entender pelo eleitor. Nos debates pela TV não conseguiu aproveitar nem mesmo o espaço que lhe cabia. Algumas vezes entregou sua manifestação bem antes do esgotamento do tempo, passando a impressão de que não tinha muito o que dizer.
Plínio defendeu, por exemplo, o calote da dívida pública, com suspensão do pagamento do principal e dos juros, ''para que sobrem recursos para a educação, para a saúde ou para as ferrovias''. Essa também havia sido, em 2006, a bandeira do então candidato à Presidência (pelo PSB), Ciro Gomes, que se mirava no exemplo do corte unilateral da dívida argentina. Até hoje, a Argentina permanece no limbo global porque continua com dificuldades para obter financiamento externo. Talvez também em consequência do fracasso argentino, até mesmo Ciro Gomes deixou de assoviar essa música.
Plínio defendeu, ainda, a taxação progressiva das grandes fortunas a partir de patrimônios pessoais e familiares de R$ 2 milhões; a reestatização imediata da Companhia Vale do Rio Doce; a abolição dos contratos de PPPs (Parcerias Público-Privadas), que ele considera ''privataria disfarçada''; a expropriação de todo o capital privado na Petrobras; e a volta do monopólio estatal do petróleo extinto na Constituição de 1988.
Deu total respaldo às invasões de propriedades agrícolas pelos movimentos sociais dos sem-terra e declarou que, se arrebatasse a Presidência, limitaria a extensão da propriedade rural a apenas mil hectares.
Na área trabalhista também foi radical. Avisou que o salário mínimo seria puxado para acima de R$ 2 mil, ou seja, para o nível que o Dieese garante ser o mínimo indispensável para restabelecer o poder aquisitivo de 1940, quando o salário mínimo foi instituído. O direito de greve seria absoluto e alcançaria até mesmo as atividades essenciais. E os funcionários públicos teriam todo o direito de paralisar seus serviços contra qualquer arrocho salarial.
Tais receitas carcomidas, num momento em que o Brasil se consolida como potência emergente e é chamado a participar da coordenação da macroeconomia global no âmbito do Grupo dos 20 (G20), podem ter sido agora arquivadas.
Coincidência ou não, essas ideias são rejeitadas ou, simplesmente, ignoradas pelo eleitor brasileiro, no momento em que mergulham no crepúsculo administrações econômicas jurássicas, como o regime castrista de Cuba, o do venezuelano Hugo Chávez e, até mesmo, o do equatoriano Rafael Correa. É sinal dos tempos.





