CELSO MING
Dureza americana
São Paulo - O presidente dos Estados Unidos carrega a maleta preta, tem poder para, a qualquer momento, despejar um arsenal nuclear capaz de destruir o mundo. Mas não tem poder para liberar recursos, que, no seu entendimento, podem tirar o país da paradeira.
Ontem, em entrevista à imprensa, Barack Obama soltou um lamento profundo. Admitiu que o processo de recuperação da economia americana está dolorosamente lento. No entanto, reconheceu que não vem conseguindo convencer o Congresso a abrir mão de impostos para abrandar a penúria dos consumidores de classe média.
Seu problema é o oposto do presidente Lula, que o próprio Obama chamou de o cara. Por aqui, Lula vai obtendo colheitas eleitorais que se devem ao bom momento da economia brasileira. Enquanto isso, Obama, que enfrenta eleições para a renovação do Congresso em novembro, vai sangrando pontos na estrutura de apoio da opinião pública e corre o risco de perder a maioria tanto na Câmara dos Representantes como no Senado. Por trás dessas dificuldades políticas estão o desemprego, que chegou a 9,6% da força de trabalho, o emperramento da atividade econômica e o travamento do consumo.
No momento, o empenho de Obama é o de que o Congresso renove para as classes médias e baixas (renda individual de US$ 200 mil por ano) o corte do Imposto de Renda instituído durante o governo Bush com o objetivo de conter a crise. Esse pacote fiscal deve expirar no fim do ano. Mas Obama vai sofrendo a forte oposição dos políticos do Partido Republicano, que pretendem estender o benefício também para os mais ricos.
Além dos entraves políticos, o presidente americano enfrenta dois problemas técnicos. O primeiro tem a ver com a complicada situação fiscal dos Estados Unidos. O rombo orçamentário deve avançar neste exercício fiscal (que vence dia 30) para US$ 1,5 trilhão, 4% acima do deficit do exercício anterior. E a dívida líquida do Tesouro deve subir neste ano 18%, para US$ 9,8 trilhões. Mais cortes de impostos ou, pura e simplesmente, aumento de despesas públicas diante desse quadro fiscal alarmante vem sendo considerado quase um suicídio pelos políticos da ala conservadora. No entanto, alguns eminentes economistas, inclusive o Prêmio Nobel de 2008, Paul Krugman, entendem que não se pode sentar sobre o cofre enquanto postos de trabalho vão sendo fechados pelo país.
A outra questão técnica a enfrentar são as dúvidas crescentes sobre a eficácia que poderia ter novo despejo de recursos na economia dos Estados Unidos. O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central), Ben Bernanke, que não enfrenta restrições do Congresso e que já enfiou mais de US$ 2 trilhões na economia para conter a crise, não manifesta segurança sobre se uma nova chuvarada de dólares será capaz de gerar emprego e consumo.
Este é o momento em que os americanos se sentem inseguros porque temem pela perda de emprego. Por isso, tendem a reduzir sua ida ao shopping center. Ao mesmo tempo, o produtor também se recusa a contratar mais gente porque tem medo da queda de consumo em consequência do desemprego. Ainda não apareceu um fato novo capaz de quebrar este círculo vicioso.





