CELSO MING
PIB em acomodação
O avanço do PIB do segundo trimestre, de 1,2% em relação ao trimestre anterior (ou 4,9% em termos anualizados), ficou dentro do esperado e reflete acomodação depois do forte salto verificado três meses antes, de 2,7% (ou de 11,2% ao ano, se o mesmo crescimento se repetisse nos três trimestres seguintes).
Assim, continuam de pé as projeções de um crescimento da economia de 7,2% em 2010 e de alguma coisa em torno dos 5,0% em 2011.
Mesmo mais baixo, esse é um resultado exuberante quando comparado com o que acontece no resto do mundo, especialmente nos países de alta renda, onde a crise produz estagnação do consumo, desemprego e desalento. Mas é preciso ver o desempenho da economia brasileira com certos cuidados. O salto que tem tudo para ser confirmado neste ano foi construído com maior utilização dos fatores de produção (especialmente instalações produtivas), que se mantiveram subaproveitados ao longo da crise
de 2008-2009.
Daqui para frente, o avanço do PIB vai esbarrar na falta de capacidade de produção e no baixo investimento, que não passa dos 18% do PIB, embora esteja aumentando. Não é preciso espremer os miolos para entender essa limitação. Se uma máquina pode produzir 100 camisetas por dia, não basta ter mais encomendas para que o fabricante produza mais. Precisa instalar mais máquinas. Ou seja, precisa investir. E para isso é necessário, antes, que tenha recursos (ou crédito) para comprar mais equipamentos. É assim que funciona o sistema produtivo.
Para que a economia cresça mais do que isso, terá forçosamente de provocar uma virada na relação consumo/poupança. O brasileiro consome muito e poupa relativamente pouco: cerca de 17% de sua renda (o mesmo que PIB), e, por isso, também investe pouco. Ninguém está pedindo que em matéria de poupança e de investimento assuma padrões chineses (que consomem apenas 49% de sua renda enquanto poupam e investem 51%).
O que já está antecipadamente determinado é que, se for para crescer mais do que esses 5,0% ou 5,5% ao ano, o brasileiro terá de reduzir seu consumo e aumentar a poupança para o patamar dos 24% ou 25% do PIB. É claro, o Brasil pode contar com o concurso de poupança externa (investimento estrangeiro), mas esta dificilmente vai superar 1,5% do PIB.
O baixo nível de investimentos não é a única bola de ferro que compromete o crescimento futuro do País. Outros pesos mortos já estão fortemente denunciados. São os juros altos demais; a elevada carga tributária, de 37% do PIB; a infraestrutura insuficiente e precária (falta de estradas, portos, aeroportos, comunicações e tanta coisa mais), que, em parte, também guarda relação com o reduzido nível de investimentos; baixo nível de educação e de escolaridade; insuficiente absorção de tecnologia pelo sistema produtivo.
Para uma virada desse jogo é inevitável enfrentar as reformas que não conseguem sair do papel: reforma tributária, trabalhista, política, da Previdência e por aí vai. E, afora isso, é preciso que o setor público (governos) reequilibre suas contas. Não pode seguir gastando o que não tem, criando poder aquisitivo e consumo que depois vão estourar as importações.





