CELSO MING
Conta ruim
O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Ben Bernanke, tem sido ácido no seu diagnóstico dos problemas da economia americana. Mas ele não está inventando nada.
Foi especialmente pessimista nos dias 21 e 22 de julho, no depoimento que presta a cada semestre no Congresso americano. E, segunda-feira, quase repetiu a dose perante autoridades dos Estados do Sul dos Estados Unidos.
Apesar da reação positiva da economia americana à crise, Bernanke insistiu em que há muito o que avançar para garantir a recuperação sustentável.
O desemprego (hoje de 9,5% da força de trabalho) não consegue ser vencido pelas recontratações, que não passam de 100 mil funcionários por mês (em média). Ao longo da crise, em 2008 e 2009, foram destruídos nada menos que 8,5 milhões de postos de trabalho. Nesse ritmo, serão precisos pelo menos mais seis anos para que seja restabelecida a mesma força de trabalho que existia imediatamente antes da eclosão da crise. As empresas também se defenderam com forte redução de custos, aumento da produtividade da mão de obra e com reforço da automação.
Raramente os dirigentes políticos descem a questões qualitativas nas suas análises do desemprego. Bernanke foi diferente. Advertiu que o desemprego não cria apenas sufoco econômico-financeiro para o desempregado e para suas famílias. Quando fica muito tempo de braços cruzados, o trabalhador também tende a perder suas habilidades e isso, por sua vez, dificulta a recontratação.
Afora isso, o crédito permanece apertado porque os bancos ainda não estão inteiramente recuperados. Eles ainda estão se livrando de ativos não honrados pelos seus clientes e, por isso, mantêm políticas restritivas à concessão de empréstimos, especialmente para pequenas empresas, justamente as que, em princípio, se dispõem a empregar mais gente.
Enquanto isso, não há sinais da volta da inflação. Ela deverá permanecer ao redor de 1% ao ano provavelmente nos próximos dois anos. Isso sugere que os juros básicos permanecerão nos atuais níveis (próximos de zero por cento ao ano) também pelos próximos dois anos, disse ele. Desta vez, Bernanke não retomou o tema da deflação (queda constante de preços), problema tão grave quanto a inflação, porque aumenta as dívidas em termos reais e derruba a arrecadação do setor público. Mas um bom número de governadores do Fed entende que essa é uma forte ameaça.
O presidente do Fed também não voltou a apontar para a grave deterioração fiscal do Tesouro americano. Como estava falando para dirigentes dos Estados do Sul dos Estados Unidos, dirigiu seu foco para os problemas enfrentados pelos Estados americanos. A recessão derrubou as receitas tributárias em cerca de 10% em 2009. Ao mesmo tempo, as despesas com tratamentos médicos (Medicaid) cresceram 11% ao ano com o desemprego. Por conta disso, as administrações estaduais não só tiveram de comprimir despesas, como também aumentar a disponibilidade de verbas para a área da saúde.
A paisagem assim descrita acentua as projeções de um desempenho medíocre nos próximos anos. A impressão que fica é a de que o despejo de cerca de US$ 3 trilhões na economia americana, tanto pelo Tesouro como pelo Fed, impediu o pior, mas não está ajudando a garantir uma rápida recuperação porque as finanças públicas ficaram em frangalhos.
Confira
Produção industrial - A queda de 1,0% da produção industrial em junho (em relação a maio) não deve levar a conclusões negativas. Junho teve Copa do Mundo, que truncou vendas e produção, e começou a refletir a retirada dos estímulos tributários, além do encarecimento do crédito com o aumento dos juros e do compulsório bancário.
Vai voltar - No mais, o consumidor havia antecipado suas compras para tirar proveito da redução de impostos e é normal que dê um tempo. As vendas (e a produção) têm tudo para voltar a partir deste mês de agosto.





