CELSO MING
O jogo virou
Enquanto a economia dos Estados Unidos cambaleia e levanta apreensões, a economia da locomotiva europeia, a Alemanha, apresenta súbita recuperação para euforia geral.
Depois da prostração que durou mais de um ano, na semana passada a Federação da Indústria Alemã (BDI) publicou seu relatório trimestral em que projeta para 2010 crescimento de 2% e aumento das
exportações de 8%.
Embora a BDI tenha advertido que é preciso cuidado em extrapolar para o futuro esse novo comportamento, tendo em vista as incertezas criadas pela mais forte regulação dos mercados financeiros, pela alta das commodities e pelo aumento dos problemas fiscais, os analistas passaram a apostar em que começa o novo boom alemão.
O próprio Ministério de Finanças refez seus cálculos e agora trabalha com um crescimento do PIB de 2,3% neste ano. Também surpreendentemente, o índice de desemprego na Alemanha é de 7,0%, um dos mais baixos da área do euro, e está em queda por 12 meses consecutivos.
O exemplo alemão é foco de grande controvérsia. Ao longo desta crise, o governo da chanceler Angela Merkel rejeitou sumariamente a criação de novos estímulos destinados a tirar a economia do sufoco. Ao contrário, defendeu que o crescimento sustentável dependeria estreitamente do reequilíbrio das contas públicas, o que exigia redução de despesas.
Mais do que isso, como não conta com moeda própria, o governo alemão não pode aumentar a competitividade do produto nacional por meio de desvalorização cambial, como costumam fazer os governos quando querem empurrar exportações e inibir importações. Para obter efeito equivalente, a decisão foi comprimir salários e aposentadorias para derrubar os custos de produção e aumentar a capacidade de exportar.
A receita do arrocho chegou a ser criticada pelo ex-vice ministro de Finanças da Alemanha Heiner Flassbeck como prática de dumping salarial, ou seja, tentativa de alijar o produto concorrente por meio da compressão de salários. Apesar disso, a redução do desemprego parece consagrar a resposta alemã à maior crise desde os anos 30.
Assim, contra enormes pressões dos Estados Unidos, o tratamento anticrise adotado pelo governo alemão recusou a receita keynesiana fácil, de aumentar ainda mais as despesas públicas para garantir mais renda e consumo. Ao contrário, aferrou-se à austeridade. E não só vai garantindo a recuperação da produção da Alemanha, como está produzindo um resultado ainda mais intrigante: aumenta substancialmente a capacidade de competição da Alemanha dentro da União Europeia. Como não reduziram nem salários nem aposentadorias, os demais países da área chegam a este estágio da recuperação com sua indústria em flagrante inferioridade de condições em relação à da Alemanha.
O impacto econômico tem tudo para ser forte. No entanto, mais forte ainda deverá ser o impacto geopolítico de longo prazo. A crise do euro mostrou que vai ser preciso maior coordenação fiscal e maior equilíbrio orçamentário entre os países-sócios. À medida que as condições da economia alemã deixam para trás as economias dos demais países, a Alemanha aumenta seu cacife político para a tarefa agora inadiável de maior coordenação dentro do bloco.





