Ajuste da indústria
  O excelente desempenho da exportação de produtos primários pelo Brasil no primeiro semestre do ano (mais 30,6%) traz de volta a questão sobre o que é preciso fazer para que essa situação não provoque permanente valorização do real, que, por sua vez, tire competitividade da indústria brasileira.
  O medo de alguns analistas é de que o Brasil contraia a chamada doença holandesa, a situação da Holanda nos anos 70 quando se tornou forte exportadora de gás natural e essa entrada rápida de moeda estrangeira valorizou fortemente o florim, a moeda do país na época. Quando o Brasil está no limiar de uma era em que se tornará grande exportador também de petróleo e derivados, o risco da doença holandesa crescerá não só pelos seus fornecimentos de alimentos e matérias-primas, mas também por esses combustíveis fósseis que terá disponíveis.
  Para evitar a excessiva valorização do real, alguns especialistas sugerem que o Banco Central atue mais agressivamente no câmbio para criar demanda adicional para moeda estrangeira e se ponha a amontoar reservas. É uma solução que não terá muito fôlego. Hoje, o Brasil já dispõe de US$ 253 bilhões em reservas. Está perto o dia em que terá US$ 300 bilhões e, a partir daí, seguirá o jogo sabe-se lá até que níveis.
  Outros sugerem que o Brasil restrinja a entrada de capital estrangeiro ou, então, passe a ter uma política de investimentos estrangeiros. Nesse caso, o governo passaria a analisar investimento por investimento e deixaria entrar apenas os que atendem ao interesse nacional, seja lá o que isso signifique.
  Outra opção, sempre lembrada e jamais aplicada, é a instituição de um confisco sobre as exportações (Imposto de Exportações) com dupla finalidade. De um lado criam-se receitas para eventual compra de dólares no mercado e, de outro, desestimulam-se exportações consideradas excessivas. Esse é o jeito argentino de lidar com o problema, o que não deixa de ser um forte desestímulo à produção de commodities. Lá, as exportações desse tipo de produto são taxadas pelas retenciones, que hoje correspondem a 10,7% das receitas tributárias.
  O problema é que ninguém mais consegue reverter a novidade dos últimos 20 anos de que o fator escasso não é mais o produto industrializado. O fator escasso são matérias-primas, alimentos e energia. E isso significa que a indústria nacional terá de passar por uma reciclagem radical para se adequar ao novo jogo internacional.
  Essa adaptação já está sendo feita. Segmentos inteiros das linhas de produção, que anteriormente eram produzidos no mercado interno, estão sendo cada vez mais importados. E isso vale tanto para autopeças como para produtos intermediários do setor têxtil. Não há script para o que deve ser feito e, ainda assim, pouca coisa depende de uma política industrial, portanto, do governo. É o empresário que terá de ajustar as necessidades de sua empresa a esses tempos novos.

mockup