CELSO MING
Gastar ou economizar?
O novo estágio da crise global é o das dívidas soberanas que atacam as economias ricas. Ao contrário do que aconteceu com a fase anterior, a do bloqueio do crédito, cuja resposta foi a ampla expansão do dispêndio público, não há ainda consenso sobre como enfrentá-lo.
Acirra-se o debate sobre o que deve ser o enfrentamento adequado pelos governos. De um lado estão os Estados Unidos, que pedem ainda mais despesas públicas e aumento da dívida para incentivar o consumo. De outro, a Alemanha, que prega rígida ortodoxia, baseada em contenção das despesas e redução da dívida.
A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, que há nove dias anunciou o mais drástico pacote de austeridade fiscal desde a 2ªGrande Guerra, está sendo alvejada por todos os lados. Mas, apoiada pelas forças políticas do país, vai sustentando sua posição.
A zona do euro está prostrada pela crise da dívida. Neste ano não deve crescer mais do que 1,0% e em 2011 talvez chegue a 1,5%, como apontam as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI). Contra as recomendações dos keynesianos, que pedem mais importações e mais consumo da Alemanha, a resposta é esse pacote aí, que pretende economizar 80 bilhões de euros (US$ 110 bilhões) em três anos.
O principal jornal da Espanha, El País, escreveu contundentes matérias contra a decisão alemã. Duas delas levam estes títulos: A Alemanha empreende um ajuste que ameaça o crescimento (9 de junho) e Merkel como problema (10 de junho). Ontem, o diário Le Monde, de Paris, publicou este editorial: As falsas virtudes do bom exemplo alemão. E o inglês The Observer não ficou atrás: A Europa abraça o culto da austeridade - mas a que custo?
A explicação que Merkel deu para essa decisão navegou pelo lado moral: Quem exige disciplina fiscal dos vizinhos tem de dar o exemplo.
Anteontem, o primeiro-ministro da França, François Fillon, argumentou não propriamente em defesa do pacote alemão, mas de iniciativa parecida que o governo de Nicolas Sarkozy se prepara para tomar: que despesas públicas altas demais e dívida excessiva sabotam a soberania de uma nação. Isso posto, mais austeridade é a resposta também do governo da França para a prostração da dívida soberana.
No mesmo dia, o professor Dani Rodrik, da Universidade Harvard, também criticou a Alemanha por falta de espírito de equipe no âmbito da União Europeia. E é essa também a observação que chegou a fazer o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Tim Geithner, cujo jogo, no momento, é a coordenação da governança global.
A questão mais séria é que os rombos soberanos atingem menos a Alemanha do que os Estados Unidos. O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Ben Bernanke, insiste em que o governo deve mudar seu jogo porque a atual política fiscal dos Estados Unidos é insustentável a longo prazo. Se nada for feito, dentro de mais um ou dois anos atingirá a mesma situação da Grécia.
É claro, nem os Estados Unidos são a Grécia, nem o dólar é o euro. Mas não dá para jogar no lixo a observação do primeiro-ministro francês de que dívida excessiva implica perda de soberania.





