Voto e inflação

  Henrique Meirelles vem entoando um bolero de Ravel ao responder aos insistentes questionamentos sobre as razões que o levaram a optar por permanecer à frente do Banco Central. Vem repetindo ter afinal entendido que tinha de dar sua contribuição para o que chama de ‘‘racionalidade econômica’’. E essa contribuição, revela ele, é trabalhar persistentemente para derrubar a inflação, como uma das precondições da vitória dos candidatos do governo nas próximas eleições.
  Em alguns momentos, essa afirmação leva jeito de jogo do contente, o de ser uma espécie de pirulito que sobra para o garoto a quem foi negado o bolo de chocolate. Independentemente das verdadeiras e definitivas razões que selaram o destino político de Meirelles, o que vale a pena examinar agora é o quanto a inflação pesa nas decisões do eleitor na escolha de seus dirigentes.
Essa é uma questão relevante porque a atitude dos políticos convencionais é de que a melhor fervura para amolecer o eleitor é a generosidade nos gastos públicos, que, de quebra, sempre ajuda nos financiamentos de campanha. O eleitor, argumentam eles, adora políticos obreiros. A inflação, infelizmente, admitem eles, é um desses efeitos colaterais que é preciso tolerar, como a sogra chata de quem decidiu se casar com a moça bonita.
  Nesse entendimento, segue-se que político vencedor não é o soldado que atravessa terras e mares para combater a alta de preços. É aquele que mostra serviço fechando os olhos para a inflação. Nenhum candidato vai à TV – ou, quando não tinha TV, não subia aos palanques – para alardear sua condição de cruzado contra a inflação. Ao contrário, propagar em campanha que é a favor da alta dos juros não é o melhor argumento para pedir voto.
  Essas foram as razões que levaram nos anos 60 o governador Adhemar de Barros a ser lembrado como o que ‘‘rouba mas faz’’ ou o ex-governador Orestes Quércia a criticar o PT ‘‘que não sabe tocar obra pública’’ ou, ainda, são as razões pelas quais conhecido candidato gosta de enumerar longa lista de ‘‘obras do Maluf’’.
  Um tanto paradoxal é o ex-torneiro mecânico Luiz Inácio Lula da Silva, inegavelmente um vencedor na política, que tem batucado tese contrária. Ainda que invente lá seus PACs e a mãe deles, o presidente Lula tem sustentado que o principal cabo eleitoral de um candidato é o controle da inflação. E é esse curriculum que Henrique Meirelles faz questão de exibir agora.
  A inflação pesa, sim, contra o governo na decisão do eleitor, até mais do que o desemprego. Sempre que há perda relevante de poder aquisitivo; sempre que os sonhos de consumo têm de ser adiados porque o salário ficou curto demais; sempre que tem a percepção de que deixou de progredir na vida porque a inflação vai comendo seu futuro, o eleitor tende a votar contra os candidatos do governo. E quando acontece o contrário, quando sabe que o dinheiro, mesmo que pouco, mantém seu valor, o eleitor tem ouvidos mais abertos para os argumentos do governo.
  Foi esse o principal fator que elegeu Fernando Henrique Cardoso, o campeão do Plano Real, em 1994. E foi esse o principal fator que reelegeu Lula em 2006.
  Não dá para afirmar que a permanência de Henrique Meirelles no Banco Central se deva a considerações desse tipo. Ele próprio não as levou em conta ao longo das tratativas de sua pretendida candidatura. Mas a lógica é essa. O eleitor pune com seu voto a excessiva tolerância com a inflação.

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