Uma nova onda negativa poderá vir em 2011, quando o governo será outro e será outra também a diretoria do Banco Central






São Paulo - Lá se foi o primeiro trimestre do ano que começou com a aposta de que seria de alentada recuperação da economia global e de forte crescimento da economia brasileira. Não foi e foi.

A percepção agora é a de que a situação externa continua muito complicada e que essa complicação compromete não propriamente o crescimento brasileiro deste ano, mas lança dúvidas sobre o que vem depois.

A crise global, a mais forte desde os anos 30, cumpre um processo de metamorfose. Começou em 2007 com a desvalorização dos ativos hipotecários nos Estados Unidos, avançou para a deterioração patrimonial dos grandes bancos e para o entupimento global dos canais de crédito. A rápida e generalizada intervenção dos tesouros e dos bancos centrais conteve o desastre, mas os Estados nacionais saíram com profundas avarias nas suas finanças. Enfrentam agora o avanço do deficit orçamentário e das dívidas públicas. A execução da política fiscal dos Estados Unidos, por exemplo, aponta para um deficit orçamentário de US$ 1,5 trilhão em 2010 e dívida pública de US$ 14,8 trilhões em 2014, o equivalente a 85% do PIB (as projeções são do Fundo Monetário Internacional).

A deterioração fiscal da Grécia, Portugal e Espanha reflete o mesmo fenômeno no terreiro do euro, que há alguns meses parecia esbanjar solidez. Por toda parte do mundo rico, há queda do consumo, baixo crescimento econômico e redução das receitas públicas. O enfraquecimento das duas principais moedas de reserva internacional é o efeito do que acontece lá fora.

Como doenças desse tipo só se curam com aumento da poupança e recessão, parece inevitável a relativa estagnação do comércio global. A exceção nesse quadro é a recuperação de alguns países emergentes, especialmente China, Índia e Brasil, graças à expansão do consumo interno.

Por enquanto, não há inflação global a exigir elevação dos juros nos países de alta renda. No entanto, mais cedo ou mais tarde, o enorme volume de recursos despejado com objetivo de estancar a crise terá de ser enxugado. Quando os bancos centrais iniciarem a ''estratégia de saída'', nova rodada de contenção do consumo e da produção deverá espraiar-se por esses países.

Tal cenário não é observado aqui no Brasil. Ao contrário, o ritmo do consumo e o aumento da atividade produtiva já são equivalentes ao período anterior à crise. O crescimento econômico previsto para este ano gira em torno dos 6%.

Mas a economia enfrenta problemas de outra ordem. O primeiro é o avanço do deficit em conta corrente (contas externas), não só em consequência do relativo estancamento das exportações, mas, sobretudo, pela disparada das importações, que crescem acima de 34% ao ano.

Por trás disso está o aumento do consumo (de cerca de 7%), que, por sua vez, vai sendo empurrado pela disparada das despesas públicas (de 17%, no ano passado) e da expansão do crédito (de 15%). O principal resultado dessa situação é o avanço da inflação que tende a se elevar para além dos 5% neste ano e exigirá contra-ataque do Banco Central por meio do aperto monetário (alta dos juros).

De todo o modo, os resultados deste ano já estão dados. Uma nova onda negativa, em resposta ao que acontece no exterior, poderá vir em 2011, quando o governo será outro e será outra também a diretoria do Banco Central.

mockup