CELSO MING
Estados Unidos e Grécia não são as únicas fichas sujas do mundo superior
Diante de um rombo de tais proporções, não dá mesmo para manter a velha pose, como ontem o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reconheceu com certa humildade.
O rombo orçamentário dos Estados Unidos, no ano fiscal que termina dia 30 de setembro, deverá ser US$ 150 bilhões mais alto do que o do período anterior e saltará para US$ 1,6 trilhão, o equivalente a 11,2% do PIB americano. O governo americano tenta agora reduzir o rombo de 2011. Em termos técnicos, um deficit superior a 3% do PIB já é considerado preocupante.
Tamanho por tamanho, esse déficit não é lá muito distante do mostrado pela Grécia (12,7% do PIB), cuja situação está provocando um vendaval na Europa. Não fossem os Estados Unidos emissores da quase única moeda de reserva do mundo, esse rombo teria provocado pânico maior do que o que prevaleceu logo depois da quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008.
Estados Unidos e Grécia não são as únicas fichas sujas do mundo superior. O Reino Unido tem um déficit de 12,6% do PIB e a Irlanda, de 12,2%. As análises sobre a deterioração da situação fiscal e financeira dos países avançados foram alinhavadas na Coluna de domingo. Hoje, vão aqui duas consequências.
Em primeiro lugar, esse perfil deteriorado tolhe a ação dos bancos centrais na execução de sua política monetária. É improvável que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra tenham condições de puxar pelos juros de maneira a retirar do mercado o excesso de dinheiro que ameaça criar novas bolhas. Uma decisão assim poderia agravar a questão fiscal desses países na medida em que aumentaria as despesas com os juros da dívida.
Em segundo lugar, ainda que as informações mais recentes sejam de que a atividade econômica melhora nos Estados Unidos e na Europa, é difícil confiar nisso.
Como ficamos sabendo sexta-feira, o crescimento do PIB dos Estados Unidos no quarto trimestre do ano passado foi acima do esperado (5,6% em termos anuais), mas não despertou entusiasmo por uma única razão: é mais resultado de um doping do que avanço natural dos negócios. Apenas impediu um tombo ainda maior da atividade econômica ao longo de 2009 (-2,6%).
Não fossem os recursos oficiais que mantiveram em pé gigantescas instituições financeiras com recursos oficiais, o mercado americano seria hoje um campo devastado como Porto Príncipe, a capital do Haiti. E entre essas enormes instituições estão o Citigroup, o Morgan, o Bank of America, a AIG, a Fannie Mae e a Freddie Mac. E ainda há a General Motors e a Chrysler.
A Europa não cresceu tanto no último quarto de 2009. Provavelmente não conseguirá desempenho melhor do que um mergulho de 4% em todo o ano. E o Japão, que continua sendo a segunda potência econômica do mundo, está em profunda recessão. Em 2009, deve ter sofrido uma queda do PIB de mais de 5%.
Enquanto não se reverter a situação fiscal dos países avançados, não há o que garanta a sustentabilidade da recuperação hoje tão alardeada. E são essas, também, as razões que justificam o pessimismo de tantos analistas que anteveem uma inevitável recaída na crise.
Celso Ming





