‘O risco é a volta da inflação de demanda, em que a procura por bens e serviços vai de automóvel e a produção de carroça’



A reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) agendada para ontem e hoje com o objetivo de rever os juros básicos já não se realiza na mesma paisagem de consumo contido e inflação em queda de alguns meses atrás.
Ao contrário, os formadores de preço e o mercado financeiro, que acompanham esse movimento de perto - porque há muito dinheiro envolvido em contratos futuros -, estão prevendo um esticão nos preços.
Há dois fatores principais puxando os preços. O primeiro deles é a gastança do governo federal. As despesas correntes do Tesouro estão crescendo a um ritmo inquestionavelmente forte, a 17% ao ano, porque o governo Lula está colocando em prática a estratégia de facilitar a vida do consumidor num ano eleitoral difícil, em que a vitória da candidata do governo não está nem um pouco garantida.
Mais despesas correntes e a disparada do crédito (a 15% ao ano) estão turbinando o consumo, que cresce a 5% ao ano, aparentemente acima da capacidade de oferta da produção local.
Nessas condições, o risco é a volta da chamada inflação de demanda, em que a procura por bens e serviços vai de automóvel e a produção segue atrás, de carroça. E quando isso acontece, o BC tem o dever de cortar certa proporção do
volume de dinheiro do mercado, providência que, por sua vez, aumenta os juros e restringe o consumo.
Os porta-vozes do setor produtivo não gostam desse tipo de raciocínio. Por eles, seria bom que a inflação corresse um pouco solta para que um aumento da demanda estimulasse o investimento que, mais à frente, garantisse mais produção.
O problema é que, no sistema de metas, o Banco Central tem de apertar a política monetária para que, em seis ou sete meses, produza o efeito de empurrar a inflação para dentro da meta que, neste ano, é 4,5%.
Ainda não está inteiramente claro até que ponto a indústria tem capacidade de produção não utilizada de maneira a garantir aumento da oferta sem necessidade de investimento. E, também, não está claro até que ponto o empresário está disposto a investir sem saber que alterações na política econômica e nas regras do jogo serão adotadas pelo governo que tomará posse dentro de 11 meses.
O ponto de vista do presidente Lula parece claro. Ele entende que uma eventual disparada na inflação criará inquietação e que isso não é bom para eleger candidatos identificados com o governo. Por esse lado, o governo quer ação que evite um clima adverso. Por outro, não quer parar com a gastança, que cumpre a função de amolecer o coração do eleitor. Isso significa que menos equilíbrio fiscal acaba sobrecarregando as tarefas do Banco Central.
Não há certeza sobre quando o BC começará a apertar sua política de juros. A aposta do mercado é que isso não acontecerá agora, mas, provavelmente, só em março ou abril. Em princípio, quanto antes começar, menor terá de ser a carga futura de juros, especialmente às vésperas das eleições.

Celso Ming

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