CELSO MING
Não é o câmbio
que afeta a
competitividade do
produto nacional,
mas o alto
custo Brasil
Por enquanto, não se deixe impressionar por adjetivações que apontam a deterioração da balança comercial do Brasil, a conta que registra o movimento de exportações e importações.
Não dá para negar que o saldo comercial (exportações menos importações) obtido em 2009 é o mais baixo do governo Lula e o tamanho do mergulho das exportações é o maior desde 1950. Mas isso está dentro da normalidade econômica. Problemas, se vierem, virão bem mais à frente.
As exportações de 2009 levaram um tombo de 22,2% em relação às de 2008, mas as importações caíram ainda mais: 25,3%. O desempenho pior das contas comerciais deveu-se aos efeitos da crise global. A atividade econômica despencou nos países ricos e as encomendas ao Brasil caíram junto. Menos importações do resto do mundo e preços mais baixos produziram esse efeito aí. Mas, até aqui, não há nada de errado com a economia brasileira.
Para este ano o jogo muda - e não é de todo para melhor. O puxador do comércio não será determinado apenas pelo que acontecerá no resto do mundo. O mercado interno também vai ter papel importante.
A economia mundial deverá recuperar-se gradativamente e não mais apenas andar para trás (recessão). Isso significa que a demanda por matérias-primas, alimentos e, também, por manufaturados deverá crescer. Esse aumento da demanda já está provocando impacto sobre os preços das commodities. E isso, por si só, tende a elevar as receitas de exportação. Além disso, o consumo no Brasil vai disparando, em consequência de uma política fiscal permissiva (aumento da gastança do governo com objetivos eleitorais) e do avanço do crédito às pessoas físicas. Mais consumo deverá reduzir o que os economistas chamam de excedente exportável. Quer dizer, vai sobrar menos para exportar.
As importações também deverão ficar alguma coisa mais caras e terão de aumentar em volume para garantir o suprimento interno. Esse jogo deverá provocar certo encolhimento do superávit comercial ao longo de 2010.
Sempre haverá aqueles que reclamam do dólar baixo demais, que tira competitividade do produto brasileiro. Mas a verdade é que a produção industrial mal vai dar conta do consumo interno. Isso não nega o fato de que o produto brasileiro enfrenta problemas nessa área. A novidade é que o câmbio adverso já não está compensando, como no passado, essa baixa competitividade, que vem de longe e não é causada pelo câmbio. É causada pelo alto custo Brasil que engloba uma lista enorme de itens: precariedade da infraestrutura, excessiva carga tributária, leis trabalhistas ultrapassadas... e por aí vai.
Apesar disso, a perspectiva de forte redução do superávit comercial previsto para este ano não provocará efeitos perversos nas contas externas, porque o investimento estrangeiro vai ajudar a garantir o aumento da capacidade de produção.
O problema é que grande parte da disposição de investir no País é determinada pela abundância de recursos externos. Mas, como domingo apontou Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), está próximo o dia em que os bancos centrais dos países ricos enxugarão a liquidez dos mercados.
Confira
O frio empurra - Os preços internacionais do petróleo voltaram a saltar para além dos US$ 80 por barril. Desta vez, o culpado pela esticada é o frio acima do esperado no Hemisfério Norte, que aumentou a demanda do produto para aquecimento.





