Rédea neles

  O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Tim Geithner, defendeu ontem no Congresso americano uma profunda reforma das regras financeiras. Ele está preocupado com o risco de que o sistema produtivo volte a se recuperar da crise sem que o sistema financeiro esteja assentado sobre bases sólidas e, assim, permaneça ‘‘vulnerável a bolhas, pânico e colapso’’.
  Para que o sistema financeiro volte a ser confiável, Geithner definiu a construção de um esquema de segurança baseado em quatro princípios. O primeiro é o de que instituições no mesmo ramo de negócio sejam submetidas às mesmas regras do jogo e à mesma supervisão. Este é um problema existente no mundo inteiro, mas exacerbado nos Estados Unidos, onde bancos de investimento, seguradoras de crédito e companhias de crédito imobiliário não eram considerados instituições financeiras. Bastava mudar o registro legal para que a empresa escapasse da fiscalização.
  O segundo princípio é o de que é preciso instituições de peso para fiscalizar bancos que dispõem de complexas conexões de negócios. ‘‘Isso requer tremenda capacidade institucional.’’ Não basta fiscalizar; é preciso impor procedimentos (enforcement authorities). É Geithner criticando o sistema pulverizado de fiscalização, que não tem força para impor mudanças nas grandes instituições.
  O secretário fala para congressistas americanos que estão lidando com problemas americanos. Mas o âmbito puramente nacional parece insuficiente para garantir uma regulação confiável. As finanças são uma atividade globalmente interligada. Instituições reguladoras locais não conseguirão controlar bancos que operam em quatro continentes, 24 horas por dia, à velocidade da luz. Mais cedo ou mais tarde, as regras e a supervisão terão de ser globais, exercidas por instituições supranacionais. O governo americano rejeita liminarmente propostas assim.
  O terceiro princípio é o de que o sistema financeiro seja capaz de resistir a choques e a eventuais desastres. Por isso a necessidade de garantir capital proporcional à magnitude dos compromissos assumidos (ativos). ‘‘Uma das mais notórias lições da crise é a de que as empresas do setor financeiro estão interligadas a uma rede complexa de contratos e compromissos informais.’’ Daí o alto risco de contágio que apenas um sólido sistema de amortecedores e procedimentos de segurança pode evitar.
  E Geithner finalmente torpedeia o princípio que ele próprio defendeu no auge da crise: o de que banco capaz de criar crise sistêmica não pode quebrar (too big to fail) e precisa ser prontamente socorrido pelo setor público.
  A rigor, ele está pedindo a volta à saudável solução pela falência, sem a qual não há administração responsável de uma instituição financeira. Se um banco sempre puder contar com salvação oficial, seus administradores não terão motivo para deixar de correr riscos irresponsáveis.
  Mas uma coisa é defender teoricamente esse ponto de vista. Outra, muito diferente, é colocá-lo em prática. Quando da quebra do Lehman Brothers, o então secretário Henry Paulson bem que tentou levá-lo às últimas consequências. Mas a devastação causada pelo naufrágio do Lehman continua sendo apontada como o principal erro das autoridades americanas no enfrentamento da crise.
Confira
  É o buracão - Nesta semana, a capa da revista The Economist foi a decolagem do Brasil. A próxima capa fala do rombo orçamentário dos Estados Unidos.

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