CELSO MING
O FMI como Banco Central
A proposta do diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, de transformar a instituição que preside em uma espécie de emprestador de última instância aos países-membros, levou muita gente a precipitadamente concluir que se tratava da criação de um banco central global.
Um banco central não tem a função de ser emprestador de última instância ao Tesouro do seu país ou dos países do bloco cuja política monetária dirija, como é o caso da União Europeia. Ao contrário, um banco central não pode misturar política monetária (política de juros) com política fiscal (arrecadação mais administração da despesa), porque seu dever é preservar o valor da moeda, e quem gasta quer outra coisa.
Entre as funções de um banco central estão a de executar a política monetária, supervisionar (sozinho ou com outras instituições) as instituições financeiras e atuar como financiador de última instância dos bancos.
Para que haja um banco central global é necessário que exista uma moeda única. O único caso no mundo desse tipo é a União Monetária Europeia, que tem o euro. Alguns países árabes já iniciaram o processo de unificação, mas aparentemente têm algumas toneladas de sal a comer juntos antes que isso ocorra.
O modelo que o maior economista do século 20, John Maynard Keynes, previa para o sistema global era o de que fosse criada uma moeda única, o bancor. E, para administrar essa moeda, seria necessário um banco central global. Mas a proposta foi rejeitada na Conferência de Bretton Woods, em 1944, pelos Estados Unidos. No seu lugar foi adotado o sistema centrado na liderança do dólar que, por sua vez, se manteria atrelado ao ouro. Mas a brutal expansão das despesas dos americanos com segurança nacional durante a guerra fria e a Guerra do Vietnã provocou rápida inflação, que exigiu do presidente Nixon, em 1971, o desatrelamento do dólar ao ouro. De lá para cá, o mundo vive de bolha em bolha, de crise em crise, de situação precária em situação precária, e aqui estamos nós.
Como as coisas têm de piorar antes de melhorar, não vai ser tão cedo que os Estados Unidos se conformarão com a perda de sua hegemonia monetária e com a perda do controle da principal moeda do mundo, fato que ocorreria se houvesse uma moeda única.
É possível que um dia a globalização esteja tão avançada que não haja outra opção que não seja a de criar também a moeda única. Mas, antes disso, será preciso alcançar a convergência entre as políticas dos países que comporão essa moeda, especialmente a convergência da política fiscal. Isso significa que as dívidas nacionais devem estar na mesma proporção em relação ao PIB, que a execução orçamentária seja equilibrada e que a inflação seja relativamente homogênea. A propósito, esse processo de convergência foi o principal objetivo do Tratado de Maastricht, de 1992, que decidiu a criação do euro, que começou a circular em 2001, e do Banco Central Europeu.
Mas, ninguém se iluda, os Estados Unidos não abandonarão tão cedo o privilégio de emitir a principal e quase única moeda internacional de reserva. Se um dia aceitarem isso é porque não terão outra saída.
Celso Ming





