Tudo se passa como se as grandes potências estivessem manobrando para empurrar um pedaço da conta da crise sobre os emergentes. Na assembleia do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Istambul, o diretor-gerente Dominique Strauss-Kahn está pregando a redução das exportações dos emergentes e o aumento das importações, especialmente da China, para que os países ricos, notadamente os Estados Unidos, retomem sua capacidade de exportar e de gerar receita.
  Esse jogo exigiria forte valorização do yuan ante o dólar. É a pressão que a China sofre desde o início do governo Bush 2 e que agora parece se redobrar.
Em artigo publicado ontem no jornal ‘‘O Estado de S.Paulo’’, o ex-chefe da equipe de economistas do FMI Kenneth Rogoff adverte a China de que não poderá aumentar indefinidamente suas reservas em dólares, e que deve cuidar da revalorização de sua moeda e importar mais dos americanos.
  A questão em si tem suas razões de ser, mas as distorções globais não foram criadas nem pela China nem pelos emergentes. A rigor, começaram em 1971, quando o então presidente Nixon desatrelou o dólar do ouro e os governos seguintes dos Estados Unidos alargaram progressivamente seus déficits gêmeos
(o orçamentário e o comercial) e passaram a viver de importação de recursos por meio da venda de
títulos do Tesouro.
  O risco de que o dólar continue a despencar, como teme o presidente do banco central chinês, Zhou Xiaochuan, é mais do que uma hipótese. E, se ela se confirmar, os países sentados sobre montanhas de dólares, como China, Rússia, Índia, Coreia do Sul e Brasil, perderão patrimônio. A ideia de trocar os ativos das reservas em dólares por ativos em outras moedas, como euros ou ienes, não leva muito longe porque não há densidade suficiente delas no resto do mundo.
  O governo Lula tenta operar relações bilaterais de comércio exterior com moedas próprias. É o que tem sugerido para a Argentina e para a China. Mas a troca apresenta limitações de duas ordens. Primeira, não dá para evitar a precificação em dólares das mercadorias trocadas. E, segunda, a compensação da quantia superavitária deve ser feita em moeda forte e não nas dos parceiros comerciais.
  De tempos em tempos se reabrem as discussões entre grandes fornecedores de commodities para cotar e faturar as vendas de seus produtos em outras moedas. Ontem, por exemplo, rumores de que os sócios da Opep encaminham providências nessa direção foram a principal razão da alta dos preços do petróleo.
  Mas, outra vez, não há moeda com aceitação global capaz de substituir o dólar nem como unidade de medida nem como reserva internacional de valor.
Por outro lado, o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, Pascal Lamy, pressiona para que as negociações da Rodada Doha sejam retomadas.
O governo Lula é um dos que insistem nessa direção. Foi o que mais pressionou na reunião do Grupo dos 20 em novembro passado para que um acordo
saísse imediatamente.
  O que deve ser perguntado é se, no contexto em
que grandes potências querem garantir condições econômicas que facilitem a redução de seu déficit comercial, o acordo que possa sair em Doha não irá derrubar a capacidade de exportação dos emergentes, sem que as distorções primárias sejam resolvidas.

mockup