CELSO MING
O futuro chegando
Os analistas internacionais já vinham festejando. Há meses, não há dia em que um grande jornal do mundo deixe de saudar o Brasil como a nova potência emergente. Agora, sob as luzes dos novos focos, de sede da Copa do Mundo em 2014 e da Olimpíada em 2016, o País será o centro de redobradas atenções, especialmente dos investidores estrangeiros. Não é preciso muito raciocínio para levar à conclusão de que haverá relevantes consequências na economia e no câmbio do Brasil.
Neste ano da maior crise econômica depois dos anos 30, a previsão do mercado é de que entrarão em 2009 pelo menos US$ 30 bilhões em Investimentos Estrangeiros Diretos (IED). Como o acumulado até agosto estava em US$ 15,9 bilhões, outros US$ 15 bilhões ainda deverão chegar até o final de dezembro.
Apenas nos três últimos meses do ano se espera o desembarque de outros US$ 25 bilhões em subscrição primária de ações e em empréstimos externos para empresas sediadas no Brasil.
E, mais do que investimentos previstos para a Copa e para a Olimpíada, consolida-se a percepção de que um grande empreendedor global não pode ficar de fora. Assim como a Olimpíada de 2008 foi o marco psicológico que alavancou a China na economia global, 2016 tem tudo para ser a data em que o futuro finalmente chegou para o Brasil.
Mais investimentos estrangeiros e mais capitais chegando não apontam apenas para mais emprego. Terão importante efeito no câmbio. Reforçam a tendência de valorização do real diante das outras moedas, o que poderá produzir deterioração da capacidade de competição da indústria. A única política colocada em prática para conter esse efeito é a compra de moeda estrangeira para a formação de reservas.
Até agora, o Banco Central (BC) sustenta que essas reservas não se destinam a impedir o tombo do dólar, mas a garantir a resistência da economia às crises. Como foi argumentado aqui no último dia 22, os US$ 205 bilhões em reservas obtidos até o final do ano passado já haviam sido suficientes para proteger a economia contra o impacto da crise. É possível sustentar que o BC precise de algo mais para completar a blindagem, já que no meio da tempestade houve ameaça de evasão de perto de US$ 80 bilhões. Se esses dólares tivessem escapado, provavelmente a insegurança que se instalaria provocaria a saída de pelo menos outros US$ 80 bilhões e, assim, as reservas estariam justas demais.
Mas qual seria o volume que deixaria o BC confortável diante das pressões externas? A resposta é importante porque define o limite de execução da atual política cambial. A partir do nível ótimo de reservas, o governo (e não apenas o BC) teria de reformular o câmbio para conter a derrubada do dólar no câmbio interno e reduzir o custo Brasil para devolver competitividade à indústria.
Muito provavelmente, o limite estaria acima de US$ 250 bilhões e abaixo de US$ 300 bilhões. Hoje as reservas são de US$ 224 bilhões e, no atual ritmo de acumulação, podem até o fim do ano atingir US$ 240 bilhões.
Isso parece dizer que, ainda em 2010, ano eleitoral e de transição de governo, a política cambial tenha de ser redefinida para que a economia possa absorver o grande volume de moeda estrangeira a desembarcar por aqui.
Confira
Tem mais - Ajustes da política cambial não seriam a única providência a tomar para restabelecer a competitividade do setor produtivo.
O mais importante a fazer seria reduzir o custo Brasil, que é o que, na prática, contém o avanço da indústria, e o que o governo até recentemente compensava com ''mais câmbio''.
MIsso teria de passar pelo aumento dos investimentos na infraestrutura e pela derrubada da carga tributária das empresas. Mas, para isso, seria preciso drástica redução das despesas públicas (ajuste fiscal) que, por sua vez, ajudaria a derrubar os juros básicos.
Celso Ming





