CELSO MING
Reforço de blindagem
Quando trata da política de formação de reservas, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem sido bem mais sincero do que o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles.
Ontem, em palestra na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, Mantega avisou que a formação de reservas vai continuar: ''Temos de comprar agressivamente dólares, aumentando as reservas, para diminuir a pressão sobre a balança comercial.''
Meirelles jamais admitiu comprar moeda estrangeira para evitar a excessiva valorização do real, o que prejudica as exportações e estimula as importações, como está dizendo Mantega. Desde março, o Banco Central acumulou US$ 23 bilhões, puxando as reservas para a altura dos US$ 222,9 bilhões.
Não há nenhum indício de que essas compras deverão parar mais adiante. Até antes da eclosão da crise financeira global, o presidente do BC apenas admitia um único objetivo na intervenção no mercado do câmbio: evitar a excessiva volatilidade, de maneira a garantir maior previsibilidade nas decisões dos agentes econômicos.
Depois disso, admitiu repetidas vezes que uma das principais razões pelas quais o Brasil se saiu bem na crise foi o fato de contar com portentoso volume de reservas, da ordem de US$ 205 bilhões. Bastou essa exibição de músculos para que fossem espantados todos os temores de que o País sucumbiria em nova moratória externa. Por aí deu para entender que a blindagem à crise externa, se não foi a principal razão que determinou a formação de reservas, foi pelo menos uma importante consequência disso.
No entanto, de lá para cá, Meirelles insiste em que a blindagem tem de ser reforçada. Mas por que a economia precisaria de mais proteção proporcionada pelas reservas: para enfrentar recaídas na crise e deixar o Brasil mais seguro diante de eventuais turbulências da campanha eleitoral - repete.
São argumentos incompreensíveis. Se reservas de US$ 205 bilhões foram mais do que suficientes para proteger o País no auge do tsunami externo provocado pela maior crise desde os anos 30, não seria uma ressaca que exigiria mais proteção externa. Além disso, em 2002 bastou que o então candidato Lula editasse a Carta ao Povo Brasileiro para que fosse embora a turbulência provocada pela campanha eleitoral. Novo reforço da atual muralha de reservas não seria hoje necessário para vacinar o País contra as conhecidas turbulências eleitorais.
Fica entendido que o Banco Central continua comprando dólares e o fará ''agressivamente'', como avisa o ministro Mantega, unicamente porque pretende impedir que a cotação do dólar escorra ainda mais abaixo do patamar em que está. Em outras palavras, o BC quer evitar a deterioração da capacidade de competir do sistema produtivo, tanto interna como externamente.
Em princípio, não há nada de errado nisso, desde que se assumam as consequências fiscais dessa operação - porque toda compra de dólares exige aumento da dívida pública a juros mais altos do que os que podem ser obtidos com a aplicação dos dólares assim adquiridos.
De todo modo, seria bem mais proveitoso para a credibilidade do próprio BC se Meirelles falasse a verdade em vez de continuar com esse ''lero-lero cambial''.
Confira
Piso informal - O BC nega que trabalhe com um piso para a cotação do câmbio. Mas, na prática, tudo se passa como se as cotações oscilassem em torno de R$ 1,80. O BC compra todo o ''excesso'' de dólares que aparece no câmbio.
Celso Ming





