CELSO MING
O apelo da Bolsa
O mercado de ações no Brasil ensaia nova temporada de alta, como atesta a expectativa dos especialistas. Até que ponto há consistência nessas projeções? Como sempre, nunca há uma resposta inteiramente confiável à pergunta. O aplicador tem de fazer apostas sabendo que não há certezas nas quais pisar.
Em plena crise, a Bolsa brasileira avançou 45%, apenas neste ano. Em julho (até ontem, inclusive), a alta é de 5,8% e, no entanto, a maior parte dos analistas reunidos na amostra ao lado apontam valorização até o final deste ano.
Há pelo menos quatro fatores que justificam essa expectativa. O primeiro deles é global. Parece consolidada a percepção de que o pior da crise já passou e que não haverá graves recaídas no estado de pânico que prevaleceu nos mercados entre meados de setembro e dezembro de 2008. Este é um estado de espírito (mais do que uma conclusão técnica) que favorece a opção pelo risco.
Além disso, o mercado financeiro global está agora mergulhado em forte liquidez. Não é nada, há pelo menos US$ 10 trilhões, emitidos pelos Tesouros e pelos grandes bancos centrais, em recursos novos circulando por aí, à procura de um retorno melhor do que o proporcionado hoje no mercado de renda fixa.
Um terceiro fator foca o nível de saúde da economia brasileira. A crise não chegou a provocar graves avarias e, comparativamente com os demais países ricos, a situação do Brasil é privilegiada. Por um punhado de razões, a economia brasileira sairá da crise melhor do que estava quando entrou. Enfim, a recuperação parece à vista e isso deve encorajar os aplicadores internacionais a selecionar o Brasil como novo pesqueiro de ações.
Também não se pode desprezar o efeito dos juros, agora bem mais baixos no Brasil (corte de 5 pontos porcentuais em pouco mais de seis meses). A mesma força que tira competitividade dos títulos e dos fundos de renda fixa tende a empurrar os aplicadores para as ações.
Mas estes traços não perfazem toda a paisagem. O ambiente global ainda está saturado de incerteza. Sabe-se lá se algo de errado poderá novamente acontecer. A recessão lá fora é profunda, o rombo orçamentário em que estão metidos os países ricos é impressionante e a dívida pública vai disparando por toda a parte. Isso não ficará sem consequência. Além disso, sobram dúvidas sobre a solidez da recuperação dos bancos.
Aquelas montanhas de ativos, que há apenas seis meses eram considerados lixo tóxico, ainda estão nos livros dos bancos - ou, até mesmo, indevidamente fora deles. Se as recaídas fazem parte do processo de recuperação, como dizem os alcoólicos anônimos, não dá para excluí-las inteiramente dos prospectos.
Por aqui, há outros elementos com potencial adverso a levar em conta. O próprio presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, vem advertindo para o que chama de ''risco eleitoral''. Isso significa que a falta de compromisso com os pressupostos da atual política econômica por parte de alguns dos pré-candidatos à Presidência da República ou, então, algum episódio posto a nu pela CPI da Petrobrás podem azedar o leite no latão.
Nunca é demais advertir: as ações continuam sendo uma boa opção apenas para quem pode esperar e não perde o sono se alguma coisa de errado acontecer.
Celso Ming





