Piorou, mas continua assim

Os números variam um pouco, mas apontam para alguma coisa entre US$ 10 trilhões e US$ 12 trilhões. É o quanto os bancos centrais e os Tesouros dos principais países do mundo despejaram nos mercados para conter a crise.

Um punhado de bancos centrais, especialmente os dos Estados Unidos, da União Europeia, da Inglaterra e da Suíça, perdeu seus escrúpulos e durante a crise adotou o slogan da Nike: just do it (aja). E deixaram rolar.

E, um depois do outro, os tesouros acionaram as guitarras, não tiveram medo de aumentar seu endividamento e se puseram a salvar bancos, grandes empresas, seguradoras ou simplesmente a incentivar o consumo.

Uma pálida amostra do resultado está na tabela ao lado. Os rombos fiscais (déficits orçamentários) se multiplicaram, algumas das dívidas públicas ficaram incomensuráveis, as moedas outrora fortes parecem abaladas.

Desde que foi inaugurada a temporada de caça aos culpados, repetem-se as recriminações aos grandes bancos centrais: eles deixaram tudo acontecer; permitiram que dinheiro demais, bombeado nos mercados lá por 2003 e 2004, produzisse bolhas gigantescas que, enfim, estouraram, com os resultados que se veem.

O diabo é que excesso de liquidez por excesso de liquidez, o de hoje é imensamente maior. A pergunta é só questão de simetria: quando haverá os novos estouros de bolhas e quando sobrevirão cataclismos substancialmente maiores do que o que acaba de sacudir o mundo financeiro?

Enquanto o debate percorre os fóruns econômicos, cabe observar que a entalada é dado consumado. Se os bancos centrais e os Tesouros se pusessem a enxugar a enorme liquidez que inunda os mercados, a crise se aprofundaria a ponto de se poder dizer que ficaria muito mais difícil de ser revertida.

Então, ainda não dá para defender uma reversão da situação atual. Ao contrário, crescem nos Estados Unidos e na Europa pressões para que as autoridades preparem mais pacotes fiscais e monetários.

No mais, é muito improvável que, no curto prazo, sobrevenha a tão temida inflação que normalmente segue as fortes emissões de moeda. A novidade está na função que a expansão de moeda está desempenhando. Ela vem suprindo o quase total estancamento do crédito, que corresponde à parte mais importante dos meios de pagamento. Isso significa que, ao contrário do que pode parecer, o crescimento das bases monetárias no mundo é muito baixo.

Além disso, a própria crise derrubou brutalmente o consumo. Por toda a parte há enorme capacidade ociosa. Basta ver o que está acontecendo nos países ricos, nos setores de veículos, de aparelhos domésticos e de construção civil. O mundo rico está vivendo um momento de deflação - e não de inflação.

Esse quadro pode reverter-se rapidamente, é claro. Mas, se houver um ressurgimento importante da atividade econômica, a primeira providência não será propriamente puxar os juros para o céu, como Paul Volcker, então presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), fez nos anos 1970. Será provavelmente reduzir drasticamente as despesas públicas.

Se os governos cumprirão ou não esse ofício é coisa para se ver e cobrar na hora apropriada. Por enquanto, a paisagem não vai mudar.


CONFIRA

Surpresa - O início de construção de residências nos Estados Unidos deu um salto inesperado de 3,6% em junho, sobre as posições de maio. É o primeiro avanço em sete meses.

Como o colapso das hipotecas foi o fator que deflagrou a crise, essa recuperação pode ser vista como mais um sinal de que a economia americana começa a sair do buraco.

Fator decisivo para a retomada do mercado imobiliário nos Estados Unidos será a estabilização dos juros de longo prazo que, por sua vez, depende do grau de aceitação dos títulos de longo prazo do Tesouro dos Estados Unidos.

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