Câm­bio e ju­ros
  As quei­xas são to­tal­men­te pro­ce­den­tes. A for­te va­lo­ri­za­ção do ­real (que­da do dó­lar no câm­bio in­ter­no) é um fa­tor que pre­ju­di­ca o de­sem­pe­nho do se­tor pro­du­ti­vo e das ex­por­ta­ções. Um dó­lar ­mais ba­ra­to em ­reais in­cen­ti­va a im­por­ta­ção e en­fra­que­ce as ex­por­ta­ções. Em ou­tras pa­la­vras, ti­ra a com­pe­ti­ti­vi­da­de do pro­du­tor bra­si­lei­ro.
  O pro­ble­ma é que, quan­do a va­lo­ri­za­ção do ­real se acen­tua, os ex­por­ta­do­res exi­gem o re­mé­dio que pou­ca efi­cá­cia tem na re­ver­são da si­tua­ção. Pe­dem in­va­ria­vel­men­te re­du­ção dos ju­ros. ­Quem de­fen­de es­sa re­du­ção afir­ma que um dos prin­ci­pais fa­to­res que ­atraem dó­la­res no Bra­sil e le­vam à va­lo­ri­za­ção do ­real, que vem em se­gui­da, é o jo­go fi­nan­cei­ro da ar­bi­tra­gem com ju­ros.
  Sim­pli­fi­ca­da­men­te, os es­pe­cu­la­do­res to­mam moe­da es­tran­gei­ra a ju­ros bai­xos lá fo­ra (di­ga­mos que se­ja a 3% ao ano), tra­zem pa­ra cá, com­pram ­reais e os apli­cam no mer­ca­do fi­nan­cei­ro a ju­ros su­pe­rio­res a 10% ao ano. São inú­me­ras as for­mas de ar­bi­tra­gem que po­dem até dis­pen­sar a en­tra­da de dó­la­res. Bas­ta que os re­cur­sos que na­tu­ral­men­te sai­riam per­ma­ne­çam por ­aqui pa­ra ti­rar pro­vei­to dos ju­ros al­tos. No en­tan­to, é im­pro­vá­vel que as ope­ra­ções de ar­bi­tra­gem ex­pli­quem a va­lo­ri­za­ção do ­real.
  Des­de 1999, os ju­ros vêm cain­do no Bra­sil. Se es­se mo­vi­men­to fos­se im­por­tan­te pa­ra ex­pli­car a en­tra­da de dó­la­res, o tom­bo pos­te­rior de­ve­ria ao me­nos mos­trar ar­re­fe­ci­men­to na que­da das co­ta­ções do dó­lar em re­la­ção ao ­real, mas is­so não ocor­re. Os ju­ros vêm ar­ras­tan­do o dó­lar pa­ra bai­xo jun­to com ­eles. Es­se mo­vi­men­to su­ge­re que a for­te que­da dos ju­ros au­men­ta a con­fian­ça na qua­li­da­de da eco­no­mia bra­si­lei­ra e ­atrai ­mais dó­la­res.
  Uma con­ta tos­ca mos­tra que a ju­ros bá­si­cos, que em pou­co ­mais de uma se­ma­na ­irão pa­ra a fai­xa dos 9,5% ao ano, as ope­ra­ções de ar­bi­tra­gem não são tão atra­ti­vas quan­to se pro­pa­la. A es­se ní­vel de Se­lic, um gran­de apli­ca­dor tal­vez con­si­ga um re­tor­no de 10% ao ano so­bre os ­quais in­ci­di­rá um Im­pos­to de Ren­da na fon­te de 15%. Is­so sig­ni­fi­ca que o re­sul­ta­do lí­qui­do da ope­ra­ção se­ria de 8,5% ao ano.
  Co­mo a in­fla­ção é de 4,5%, o lu­cro lí­qui­do des­se apli­ca­dor não se­ria su­pe­rior a 4% ao ano, que cai­ria pa­ra 1% ao ano se for le­va­do em con­ta o ‘‘­seguro’’ es­ta­be­le­ci­do pe­lo ín­di­ce de ris­co Bra­sil, de 3 pon­tos por­cen­tuais. Es­te não é um re­tor­no re­le­van­te, con­si­de­ran­do que o apli­ca­dor cor­re o ris­co do câm­bio, o mes­mo que es­tra­gou a saú­de fi­nan­cei­ra de Sa­dia, Vo­to­ran­tim e Ara­cruz.
  As apli­ca­ções em cur­to pra­zo (US$ 2,2 bi­lhões no qua­dri­mes­tre) pa­re­cem de­mons­trar que as ope­ra­ções de ar­bi­tra­gem com ju­ros não ex­pli­cam a atra­ção que o mer­ca­do bra­si­lei­ro exer­ce so­bre os aflu­xos de moe­da es­tran­gei­ra.
  Os ju­ros vão con­ti­nuar cain­do, mas nin­guém es­pe­re que ­mais dia me­nos dia se trans­for­mem em fa­tor im­por­tan­te pa­ra ga­ran­tir uma vi­ra­da na tra­je­tó­ria do câm­bio.

Con­fi­ra
Não acon­te­ceu - No de­poi­men­to que deu on­tem no Se­na­do, o mi­nis­tro da Fa­zen­da, Gui­do Man­te­ga, não che­gou a con­tes­tar o pre­si­den­te do Ban­co Cen­tral, Hen­ri­que Mei­rel­les, na ques­tão do câm­bio, co­mo al­guns che­ga­ram a anun­ciar.
  Man­te­ga li­mi­tou-se a di­zer que os ju­ros es­tão al­tos no Bra­sil, mas que con­ti­nua­rão cain­do. Não che­gou nem a en­fa­ti­zar que os ju­ros al­tos es­ti­mu­lam a es­pe­cu­la­ção com moe­da es­tran­gei­ra.
  E avi­sou que as re­ser­vas su­bi­rão bem ­mais do que seu ní­vel ­atual de US$ 205 bi­lhões. Is­so au­men­ta­rá a per­cep­ção de so­li­dez da eco­no­mia.

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