Inflação como solução


São Paulo - Pensar o impensável na maioria das vezes produz maluquices. Outras vezes, ensina.

Ontem (20), o New York Times publicou artigo de um professor de Economia da Universidade Harvard, Gregory Mankiw, em que propõe que o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) trabalhe com juros negativos para estimular o crédito.

No momento, os juros básicos nos Estados Unidos estão próximos de zero, no pressuposto de que é impossível baixá-los ainda mais. Mas isso não está sendo suficiente para derrubar os juros dos títulos de longo prazo. Não há demanda natural para eles. Assim, para facilitar a baixa do custo do financiamento hipotecário, o Fed passou a recomprar títulos do Tesouro dos Estados Unidos de dez anos. Com isso, aumenta a demanda por esses títulos de maneira a forçar os aplicadores a aceitar um rendimento (yield) mais baixo.

No entanto, os juros zero não estão sendo suficientes para empurrar o consumidor americano às compras, de maneira a puxar pela demanda, aumentar a produção e baixar o desemprego. Por isso, é preciso pensar nos juros negativos, sugere Mankiw.

A linha majoritária do pensamento econômico considera a ideia de que um banco empreste US$ 100 para receber, um ano depois, US$ 97 (juros negativos de 3% ao ano) - um desses absurdos que não servem nem para brincadeira entre economistas.

A primeira objeção é de que não há doido no mundo que pretenda emprestar dinheiro a um tomador que assuma o compromisso de pagar menos de volta. Nesse caso, bastaria deixar o dinheiro dormindo numa conta bancária ou no forro do colchão para obter retorno mais alto. Mankiw lembra que o mais famoso economista do século 20, John Maynard Keynes, chegou a sugerir que dinheiro parado devesse sofrer um confisco (imposto), para estimular o crédito. Hoje, a melhor maneira de alavancar o crédito, diz Mankiw, seria deixar o campo solto para a inflação.

Qualquer brasileiro com mais de 20 anos sabe como isso funciona. Uma inflação de 10% ao ano corrói em 10% o caixa de qualquer instituição. Assim, melhor emprestar e perder 3% do que deixar o dinheiro derretendo sob inflação e perder 10%.

É claro que, à medida que o dólar começasse a derreter com a inflação, os países emergentes enfrentariam perdas patrimoniais equivalentes nas suas reservas em dólares e é talvez por pressentir esse jogo que a China, que tem reservas de US$ 2 trilhões, trata de pregar a criação de nova moeda internacional de reserva.

Isso não é tudo. Quando ficasse claro que a política deixou que a inflação corresse solta, o dólar sofreria uma desvalorização correspondente nos mercados de câmbio, porque os detentores de estoques em dólares tratariam de trocá-los por outros ativos.

As autoridades americanas ainda teriam a seu favor o fato de que hoje não há substitutivo para o dólar. Os primeiros a chegar ainda conseguiriam escorar-se no euro ou no iene e logo chegaria o dia em que não haveria disponibilidades em outra moeda forte que substituísse o dólar. Mas, antes disso, a desvalorização do dólar teria feito estragos.

Faltou dizer que é até relativamente fácil deixar que a inflação corra solta e faça o serviço de queimar o excesso de liquidez no mercado internacional. O problema é segurá-la depois.

Confira

Não dá para confiar - Após ter anunciado lucro de US$ 4,25 bi no primeiro trimestre do ano, as ações do Bank of America despencaram 24,3% em Nova York. Os investidores ficaram assustados com as provisões de US$ 6,4 bilhões feitas para cobrir perdas no crédito.

As do Citigroup, que, na semana passada, anunciara lucro de US$ 1,6 bi, caíram ontem 19,4% depois que o Goldman Sachs avisou que as perdas do Citi no crédito vão disparar.

Os créditos estão podres, mas os bancos os contabilizam como bons porque o governo permitiu a flexibilização das regras de marcação a mercado.

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