CELSO MING
O número mágico que garantiu, na semana passada, a percepção de sucesso da reunião de cúpula do Grupo dos 20 (G-20) foi o US$ 1,1 trilhão em recursos novos para combater a crise. Desse trilhão e tanto, US$ 750 bilhões correspondem a empréstimos e garantias ao Fundo Monetário Internacional (FMI), que se encarregará de repassá-los não aos países ricos, mas aos demais que estiverem sem crédito para a rolagem de suas contas, como o México.
Esse reforço chega num momento em que se discutia o colapso das funções institucionais do Fundo. Antes da crise, o FMI tinha perdido suas funções tradicionais porque, um a um, os países emergentes dispensaram seus recursos, seja porque não queriam aceitar as draconianas exigências para tomarem esse dinheiro; seja porque deles não precisavam.
Uma vez ocorrido o estouro da grande bolha, quando os países ricos foram obrigados a despejar pelo menos US$ 5 trilhões para as despesas de resgate das economias, verificou-se que os recursos do Fundo eram de longe insuficientes para as necessidades globais de combate à crise.
Mas há outras questões a avaliar agora. Criado em 1944, em Bretton Woods, Estados Unidos, como uma instituição-chave para reformatar a economia global, o FMI deveria fornecer os recursos aos países que eventualmente passassem a ter problemas em sua capacidade de honrar compromissos no exterior.
Para que esses recursos fossem adiantados para o país em crise de pagamentos, o Fundo sempre exigiu drástica disciplina fiscal. O pressuposto é o de que toda dificuldade para honrar contas externas decorre da gastança dos governos. Assim, a única garantia de que o país devedor fosse capaz de pagar no prazo combinado os empréstimos era a obtenção de rígidos superávits fiscais que derrubassem sua dívida a níveis financiáveis.
A questão está em saber se o FMI vai manter ou não as mesmas exigências; se o objetivo é agora apagar o incêndio e não garantir capacidade de pagamento futuro. Essa transfusão de recursos está sendo feita num momento em que não só os Estados Unidos alardeiam que todos os países precisam despejar pelo menos 2% do PIB para enfrentar a crise, como também os próprios Estados Unidos puseram de lado quaisquer outros pruridos conservadores nessa matéria. O próprio Federal Reserve (o banco central americano) decidiu adotar as práticas de afrouxamento monetário quantitativo que seu presidente, Ben Bernanke, chamou de despejo de dinheiro ''por helicóptero''.
E, ao anunciar os resultados da reunião de cúpula do G-20, o primeiro-ministro da Inglaterra, Gordon Brown, proclamou enfaticamente o fim do Acordo de Washington, que é como se resumiam as exigências do FMI aos devedores. Por outro lado, verter generosamente dinheiro no chapéu dos países necessitados sem deles exigir as contrapartidas de praxe é colocar toda a operação sob risco.
O próprio presidente Lula, que achou chique emprestar US$ 10 bilhões para o Fundo, certamente não gostará nem um pouco se for notificado de que este é um dinheiro a fundo mais ou menos perdido e que, por isso, terá de ser especialmente generoso com os novos devedores.
Confira
O lugar na foto - Houve quem estranhasse a afirmação feita na coluna de domingo de que, se tivesse errado no principal, o presidente Lula não estaria posando na foto ao lado da rainha.
''O critério para as posições da foto foi o da antiguidade no governo. Como Lula é o mais antigo chefe de Estado, foi para ele a posição'', avisou um leitor.
De fato, alguém se encarregou de avisar que o critério foi a tal antiguidade. Mas é evidente que a informação tem algo errado. Se tivesse prevalecido esse critério, o presidente Barack Obama estaria na outra ponta da foto. Ele tem apenas dois meses e meio de governo.
Por Celso Ming





