CELSO MING
Desta vez não foi nenhum palpiteiro mal-humorado que cantou a degringolada dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, conhecidos no mercado como treasuries. Foi o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, que sexta-feira externou preocupações sobre a capacidade futura do Tesouro americano de honrar sua dívida.
Em linguagem mais simples, o governo chinês avisou que teme o calote do governo dos Estados Unidos. Convém levar em conta que, no final de dezembro, a China detinha nada menos que US$ 1,9 trilhão em reservas externas, das quais pelo menos US$ 739,6 bilhões estavam aplicados em treasuries. A China é o maior credor dos Estados Unidos.
A contundência de Wen não caiu no vazio. Domingo, na entrevista à imprensa que se seguiu ao encontro com o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente Barack Obama se sentiu na obrigação de garantir a absoluta segurança dos títulos de dívida do seu país: ''Cada investidor, e não apenas o governo chinês, pode ter absoluta confiança na saúde dos seus investimentos nos Estados Unidos.''
Wen Jiabao não está refletindo uma preocupação apenas do seu governo. Está verbalizando o que muitos analistas vêm se perguntando. O rombo orçamentário do governo americano deste ano fiscal (que se encerra em setembro) está projetado em US$ 1,5 trilhão, o que exigirá aumento da dívida.
Apenas o pacote fiscal destinado ao socorro dos bancos será de pelo menos US$ 1 trilhão. No entanto, o déficit patrimonial dos bancos é de pelo menos US$ 2 trilhões, o que sugere a necessidade de emissão de mais títulos. Como não há o que chegue, é natural perguntar até onde vai esse despejo de títulos no mercado e se, de uma hora para outra, não pode ocorrer a rejeição deles.
Isso não é tudo. Esses títulos estão em dólar. Se houvesse forte desvalorização do dólar, a própria dívida do país seria fortemente desvalorizada. Num ambiente de juros básicos próximos do zero, em que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) pode despejar dólares ''de helicóptero'', como já disse Ben Bernanke, presidente do Fed, não seria tão despropositado perguntar se o dólar não correria o risco de virar pó.
Embora muito se tenha escrito sobre o assunto, até agora, a solidez dos treasuries e do próprio dólar nunca foi seriamente questionada. A cada surto de intranquilidade ou de crise de confiança, é neles que os investidores buscam refúgio. De qualquer forma, as declarações de Wen suscitam novas questões.
A primeira delas tem a ver com o verdadeiro interesse de Wen. Na condição de credor mais importante dos Estados Unidos, o governo chinês seria o menos interessado numa desvalorização da dívida americana e do próprio dólar. A simples declaração do primeiro-ministro chinês poderia, em princípio, provocar uma desvalorização patrimonial da China.
Talvez o governo chinês esteja apenas tentando desencorajar novas e crescentes pressões do governo americano pela valorização do yuan, a moeda chinesa. Ao lembrar publicamente que detém o maior estoque de títulos do Tesouro, Wen parece avisar que, no limite, pode usá-los como poder de barganha. Bastaria que despejasse uma pequena parcela deles no mercado para provocar a derrubada das cotações do dólar e dos próprios treasuries.
Confira
Credores dos EUA Em bilhões de dólares
China 739,6
Japão 634,8
Exportadores de petróleo 186,3
Centros bancários do Caribe 176,6
Brasil 133,5
Reino Unido 124,2
Rússia 119,6
Passou a Inglaterra - A tabela mostra que, em janeiro, o Brasil era o quinto maior credor do Tesouro dos Estados Unidos. Ao final de janeiro, as reservas brasileiras alcançavam US$ 200,8 bilhões. US$ 133,5 bilhões estavam aplicados em treasuries.
Celso Ming





