CELSO MING
O tombo
A queda do PIB no quarto trimestre de 2008, de 3,6% sobre o PIB do terceiro trimestre, só não foi mais chocante porque já era esperada. Foi a maior queda trimestral desde 1996, quando a nova metodologia de cálculo do PIB foi adotada. O impacto sobre a economia e sobre o jogo político deve ser muito forte.
Mais do que o tamanho da queda, impressiona a rapidez com que chegou. Ainda em outubro, já no quarto trimestre, o presidente Lula dedilhava na viola dele os acordes da ''marolinha''. Ou seja, o governo só tomou conhecimento da crise em novembro. Mas ela já estava instalada por aqui, com toda sua força, em outubro. Ainda assim, o resultado final de 2008 é favorável: crescimento econômico de 5,1%.
O principal canal de transmissão da crise externa para dentro da economia brasileira foi o estancamento do crédito no mercado externo que aconteceu em meados de setembro, com a quebra do Lehman Brothers. Foi a partir daí que grandes empresas brasileiras não conseguiram mais renovar seus contratos de financiamento com os bancos estrangeiros. Esse afunilamento do crédito interno foi redobrado a partir do momento em que as subsidárias de empresas estrangeiras no Brasil acorreram ao mercado já superprocurado de crédito interno para obter recursos com que socorreram o caixa das matrizes no exterior.
O desempenho do sistema produtivo no primeiro trimestre deste ano será inequivocamente melhor do que o do último trimestre de 2008, mas, a julgar pelos números disponíveis sobre o comportamento da indústria, muito dificilmente deixará de ser negativo. O fator arrasto do quarto trimestre desastroso vai pesar.
Os economistas se revezarão nas projeções do resultado deste ano. Como sempre, apenas apontarão para certo consenso depois que o cronograma de ajuste for suficientemente conhecido. Ontem o presidente do Citigroup, Vikram Pandit, anunciou o fato mais auspicioso desde o início da crise: a volta do lucro às contas do seu banco já nos dois primeiros meses de 2009. Isso parece mostrar que a situação calamitosa dos bancos nos Estados Unidos começa a ser revertida. Se isso se confirmar, a confiança pode voltar ao mercado internacional e, com ela, o crédito, o consumo e a produção. A conferir.
O mau resultado do PIB já aumentou e deve redobrar as pressões sobre o Banco Central do Brasil para que derrube mais agressivamente os juros. Mas, como se sabe, no exercício da política monetária, o Banco Central prefere o gradualismo e não os solavancos.
Além das notórias consequências econômicas sobre o emprego e o salário, um PIB notoriamente mais magro ao longo de 2009 terá forte impacto político. Primeiramente porque a oposição tratará de explorar o que vai chamar de deterioração das condições da economia e aumento do desemprego. Ontem, no Senado, a oposição trouxe a ''recessão brasileira'' para o foco dos ataques ao governo.
E, em segundo lugar, o fator político ganhará força porque a queda da arrecadação tende a deixar o governo mais vulnerável na sua principal bandeira eleitoral que é a execução do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC.
Confira
De uma vez - Alguém observou ontem que a queda do PIB, de 3,6% no último trimestre do ano, é a maior entre os emergentes do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). Os números não são comparáveis, pela diferença de metodologia aplicada.
No entanto, o mais provável é que o impacto da crise no Brasil ficou mais fortemente concentrado no quarto trimestre do ano passado.
As projeções da revista The Economist para todo o ano de 2009 são de que o PIB do Brasil cairá 0,6%; o da Rússia cairá 2,0%; o da China crescerá 6,0%; e o da Índia crescerá 5,0%.
Por Celso Ming





