CELSO MING
O presidente Lula tem uma política truncada e seletiva em pelo menos duas áreas: no comércio exterior e na chamada política industrial. Nesta crise, com toda razão, o presidente Lula assumiu um discurso forte contra o protecionismo comercial que vai tomando corpo em todo mundo.
Na reunião de cúpula do Grupo dos 20 (G-20), realizada em novembro, Lula conseguiu arrancar dos chefes de Estado um consenso em torno da retomada, ainda em 2008, das negociações da Rodada Doha pela liberação do comércio. A iniciativa não foi adiante até por falta de tempo para isso; os governantes dos países ricos estavam mais empenhados em apagar incêndios.
Depois disso, coerente com a posição assumida, Lula passou a investir contra o protecionismo dos países ricos, a começar pelo dos Estados Unidos, que seguem barrando a entrada de produtos brasileiros em seu mercado. Ainda ontem, na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o presidente não poupou munição contra o que chamou de vale tudo protecionista.
Mas, na prática, a teoria é outra se o protecionismo vier da Argentina. Eles podem tudo contra o produto brasileiro. Podem impor barreiras não-tarifárias; e podem abrir à vontade processos de dumping contra produtos brasileiros, como acaba de acontecer com o setor de cutelaria. E, agora, os argentinos também não vêm encontrando resistência significativa no Itamaraty quando preparam legislação que vai impor cotas (limites quantitativos) na entrada de aparelhos domésticos, calçados e têxteis. Enquanto isso, o produto asiático deita e rola no comércio argentino, sem o produto brasileiro.
Fácil entender que essa seletividade incompreensível desmoraliza não só o discurso antiprotecionista do presidente Lula; desmoraliza qualquer atitude prática. Com que força o governo brasileiro poderá prosseguir com suas denúncias na OMC ou fora dela contra as práticas desleais dos países ricos se a mesma regra não vale para vizinhos?
Em política industrial acontece algo parecido. A indústria automobilística - tão querida pelos sindicalistas brasileiros porque foi lá que as coisas começaram - tem tudo ou quase tudo o que quer: recursos generosos do BNDES; financiamento especial do Banco do Brasil nas vendas ao consumidor; crédito de ICMS de alguns governos estaduais; e o corte de IPI, que ao final de março tem uma probabilidade de 50% de ser renovado, conforme garante o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge.
E, no entanto, as montadoras americanas que operam no Brasil estiveram entre as empresas estrangeiras que mais remeteram recursos para suas matrizes em Detroit para reforçar seu caixa. O governo Lula parece ignorar que esses favores pouco ou quase nada vêm contribuindo para defender o emprego no Brasil. Ajudam, sim, a adiar o pior para o setor lá nos Estados Unidos.
Convém pontuar: não há nada de especialmente errado em ser seletivo em política industrial. Ao contrário, a seletividade é inerente a toda política industrial. No entanto, fica difícil entender os critérios dessa seletividade montada para garantir o emprego, ante a maior vulnerabilidade de outros setores da economia, caso da pequena e média empresa, do setor de calçados e de produtos têxteis.
Confira
Perto do pó - As ações do Citigroup fecharam ontem na Bolsa de Nova York a US$ 1,02. Mas chegaram a ser negociadas a US$ 0,97. Em pouco mais de dois anos valiam US$ 53. Lembra-te, banco, que és pó e em pó te hás de tornar.





