CELSO MING
Hora do ajuste
É improvável que os ministros de Finanças e presidentes dos bancos centrais dos sete mais ricos países do mundo (Grupo dos Sete, G-7), reunidos na quinta e na sexta em Roma (Itália), encontrem saídas mais eficientes para a crise global do que as que já vão sendo colocadas em prática. Em contrapartida, esta pode ser uma boa oportunidade para coordenar melhor as políticas.
Esse encontro se realiza sob circunstâncias especiais. É o primeiro que conta com a participação do secretário do Tesouro do novo governo americano, Timothy Geithner.
Será uma excelente oportunidade para explicar aos demais parceiros europeus, sempre tão relutantes em encontrar uma solução comum para os bancos, o que pretende com o novo pacote de socorro às instituições financeiras. Parece claro que uma amarração mais ampla do plano é essencial para seu sucesso.
Já não dá para encontrar saídas apenas nacionais para os bancos que, na verdade, têm uma atuação globalizada. Se é para adquirir ativos podres do Bank of America ou do Citi, por exemplo, é preciso também que a política seja estendida às subsidiárias e às agências que operam em outros países. Se quebrar, um banco global não quebra apenas nacionalmente. Também suas sequelas serão globais. Enfim, por aí se vê que há razões suficientemente fortes para garantir um plano de intervenção que seja coordenado globalmente.
Uma limitação desse encontro é o fato de que o G-7 (Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Japão, Canadá, França e Itália) já não pode ser considerado o clube dos países mais ricos. A China já ostenta o terceiro maior PIB do planeta e, em setembro, ultrapassou o Japão como maior investidor nos Estados Unidos. E, no entanto, está fora do grupo.
Enfim, não dá para ignorar a força dos emergentes. Esta coluna já mencionou o fato de que, em 2007, responderam por 44% do PIB e por 70% do crescimento mundial. Essa participação deve se acentuar à medida que forem conhecidos os números definitivos de 2008 e se confirmar que os emergentes sofrerão menos do que os países centrais as consequências da crise.
Na quinta-feira a agência Bloomberg lembrou que China, Rússia, Brasil e Índia detêm 41% das reservas externas globais, a maioria aplicada em títulos do Tesouro americano. Ou seja, os emergentes se tornaram grandes credores dos Estados Unidos.
Isso significa que também não dá para ignorar o concurso dos emergentes nas soluções que vierem a ser coordenadas para o enfrentamento da crise. Isso sugere que o novo encontro do Grupo dos 20 (G-20), agendado para 2 de abril, poderia, em princípio, encaminhar mais soluções do que este evento mais restrito.
Finalmente, o encontro se realiza sob intensificação do protecionismo mundial. O próprio presidente Obama se elegeu empunhando bandeiras protecionistas e não parece ter atuado o suficiente para expurgar do plano de US$ 787 bilhões os dispositivos buy american aprovados semana passada no Congresso americano. Na Inglaterra e na França, os sindicatos estão exigindo reservas do mercado de trabalho.
Se é para definir a coordenação global da saída da crise, é incompreensível que não saia uma inequívoca condenação das práticas protecionistas. A conferir.
Confira
O pior já passou? Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a economia brasileira já está em franca recuperação. Esta é uma boa aposta, mas ainda não passa de aposta.
A certeza de que a recuperação da economia é sustentável (e não apenas um movimento passageiro de recomposição de estoques) ainda precisa enfrentar maiores testes.
A questão central consiste em saber como ficam os bancos americanos. Ainda há muita pergunta à espera de resposta no recém-lançado Plano Geithner. E bastará um único banco importante quebrar para que a economia global se desmanche.





