Celso Ming
A crise global turbinou movimentos protecionistas ao redor do mundo que, em certos momentos, descambam para a xenofobia descarada. Mas a reação em sentido contrário vem a galope e parece sólida.
Há semanas, pressionados pelos cartolas dos grandes sindicatos, os políticos americanos vinham defendendo reserva de mercado para o produto americano. Os deputados da Câmara dos Representantes já haviam definido que todo minério de ferro e todo aço a serem comprados com recursos do pacote Obama (US$ 819 bilhões) teriam de ser produzidos nos Estados Unidos. Depois, alguns senadores tentaram ampliar o movimento ''buy american'' para qualquer produto a ser empregado com recursos do pacote.
Na Inglaterra, cresce o movimento dos trabalhadores por outro tipo de reserva de mercado: ''Empregos britânicos primeiro para britânicos'', bradaram eles em manifestações realizadas nesta semana em Londres.
Há dias, a ministra das Finanças da França, Christine Lagarde, outrora assumidamente liberal, vem parecendo mudada: ''o protecionismo pode ter-se tornado necessário'', disse.
Por aqui, a direção da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que às vezes prega a abertura do mercado (dos outros), defendeu há uma semana o estabelecimento de travas burocráticas às importações e manifestou contrariedade quando o presidente Lula ordenou que a decisão, já tomada pelo Ministério do Desenvolvimento, fosse prontamente revertida.
Não está nem um pouco claro se o governo Obama neutralizou os rompantes protecionistas do Congresso. Alguns enxertos suspeitos no projeto de lei foram expurgados, mas não se sabe até onde vai a disposição de Obama em vetar artigos que não forem bloqueados no Legislativo.
Ontem, em Berlim, os dirigentes de cinco siglas multilaterais (OCDE, OMC, OIT, FMI e Banco Mundial) e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, assinaram comunicado conjunto em que lembram que ''a crise é global e exige soluções globais'', repudiam o protecionismo e defendem a retomada das negociações para abertura comercial no âmbito da Rodada Doha. (Veja o Confira). Falta ver se são mais do que vozes que clamam no deserto.
O protecionismo comercial e financeiro é um tiro no pé. É compreensível que uma indústria nascente numa economia em desenvolvimento ganhe certa proteção. É como fincar uma estaca no plantio de uma muda de árvore, quando o ambiente estiver exposto demais à ventania. Mas, na floresta formada, é contraindicado sustentar até plantas frágeis. Sempre que se fecha a importações, um país contribui para que o resto do mundo também se feche para suas exportações.
Além disso, todo protecionismo é esquizofrênico. Sua lógica é atacar a matéria-prima e os componentes usados na montagem e defender o produto acabado. Não há como evitar que descambe para o canibalismo.
Veja a cadeia têxtil. O produtor de fios diz: ''paulada nas fibras e defesa total para o fio''. O produtor de tecidos diz: ''paulada no fio e defesa total para o tecido''. O produtor de confecção diz: ''paulada no tecido e defesa total para a confecção''.
Nessa filosofia, prevalecem as pauladas e só fatura o produtor chinês.
Confira
- O Documento de Berlim, ontem divulgado, tem lá certos enunciados social-democratas, mas evoca implementação dos princípios já sacramentados na cúpula do G-20 realizada em novembro.
- O texto pede uma ''nova arquitetura financeira internacional'' a ser decidida na nova cúpula do G-20, agendada para o início de abril.
- E condena o protecionismo: ''todos os países têm o dever de resistir às tendências protecionistas, de trabalhar por uma clara abertura comercial e de assegurar que os pacotes anticrise não sabotem o comércio mundial''.





