Há qua­se ­dois me­ses, a reu­nião de cú­pu­la do Gru­po dos 20 (G-20) de­ci­diu um pla­no de ­ação ur­gen­te con­tra a cri­se. Ho­je se vê que o do­cu­men­to com ­suas 47 pro­po­si­ções não pas­sou de ex­ten­sa de­cla­ra­ção de in­ten­ções. A jul­gar pe­los re­sul­ta­dos, a con­clu­são é de que os ­mais po­de­ro­sos do mun­do não têm o que fa­zer con­tra a cri­se ou, se têm, não con­se­guem se en­ten­der.
A prin­ci­pal re­co­men­da­ção foi que os go­ver­nos co­lo­cas­sem em mar­cha ‘‘­ações for­tes e sig­ni­fi­ca­ti­vas pa­ra es­ti­mu­lar a eco­no­mia, pro­ver li­qui­dez, for­ta­le­cer o ca­pi­tal das ins­ti­tui­ções fi­nan­cei­ras, pro­te­ger a pou­pan­ça e os de­pó­si­tos, cor­ri­gir de­fi­ciên­cias re­gu­la­tó­rias e des­con­ge­lar o ­crédito’’.
Não hou­ve ­ações con­jun­tas sig­ni­fi­ca­ti­vas. O go­ver­no ame­ri­ca­no bem que bai­xou um gran­de pa­co­te (o do se­cre­tá­rio ­Henry Paul­son), de US$ 700 bi­lhões, e a pró­xi­ma ad­mi­nis­tra­ção pre­pa­ra ou­tro, de US$ 770 bi­lhões.
En­quan­to is­so, os di­ri­gen­tes da ­União Eu­ro­peia se­guem pa­ra­li­sa­dos. Um le­van­ta­men­to pré­vio do Fun­do Mo­ne­tá­rio In­ter­na­cio­nal ava­liou que se­riam ne­ces­sá­rios pe­lo me­nos 900 bi­lhões de eu­ros (US$ 1,2 tri­lhão). Mas dos di­ri­gen­tes eu­ro­peus não foi pos­sí­vel ar­ran­car ­mais do que 200 bi­lhões de eu­ros (US$ 268 bi­lhões).
São ini­cia­ti­vas de lon­ge in­su­fi­cien­tes se o ob­je­ti­vo é con­tro­lar a cri­se. ­Mais la­men­tá­vel ain­da, ca­da um dos 27 go­ver­nos vai usan­do os re­cur­sos co­mo bem en­ten­de, sem ne­nhu­ma coor­de­na­ção.
Por em­pe­nho do pre­si­den­te fran­cês, Ni­co­las Sar­kozy, o G-20 anun­ciou um pro­je­to de re­for­ma do sis­te­ma fi­nan­cei­ro in­ter­na­cio­nal pa­ra evi­tar que no­vas bo­lhas se for­mas­sem.
Nes­se se­tor, na­da avan­çou, prin­ci­pal­men­te por opo­si­ção dos Es­ta­dos Uni­dos, que não ­veem ne­ces­si­da­de de se ­criar um su­per­xe­ri­fe glo­bal pa­ra cui­dar dos ban­cos e dos fun­dos de hed­ge.
Num cer­to sen­ti­do, os ame­ri­ca­nos pa­re­cem ter ra­zão. O pro­ble­ma não es­tá na fal­ta de re­gu­la­ção, mas em fa­zê-la fun­cio­nar. Em ma­té­ria de res­tri­ções à ope­ra­ção dos ban­cos não há na­da ­mais avan­ça­do do que os cri­té­rios de Ba­si­leia 2. Se os ban­cos os ti­ves­sem se­gui­do, não ha­ve­ria a bo­lha hi­po­te­cá­ria e a enor­me ala­van­ca­gem que se viu des­de 2005.
As res­tri­ções às ope­ra­ções dos fun­dos de in­ves­ti­men­to são co­nhe­ci­das e es­tão aí os or­ga­nis­mos de fis­ca­li­za­ção. Mas, em ­suas cin­co in­ves­ti­ga­ções, a Se­cu­ri­ties and Ex­chan­ge Co­mis­sion (SEC), ins­ti­tui­ção en­car­re­ga­da da li­su­ra do mer­ca­do nos Es­ta­dos Uni­dos, não con­se­guiu de­tec­tar ne­nhu­ma ir­re­gu­la­ri­da­de na am­pla ope­ra­ção de es­te­lio­na­to pro­mo­vi­da por Ber­nard Ma­doff.
Da mes­ma for­ma, o Fe­de­ral Re­ser­ve (Fed, o ban­co cen­tral ame­ri­ca­no) não de­tec­tou a for­ma­ção da bo­lha e na­da fez pa­ra evi­tar seu es­tou­ro. E as agên­cias de clas­si­fi­ca­ção de ris­co dis­tri­buí­ram car­ra­das de cer­ti­fi­ca­dos AAA pa­ra ati­vos que de­pois fo­ram con­si­de­ra­dos ‘‘li­xo ­tóxico’’. Vai-se ven­do que o pro­ble­ma não é pro­pria­men­te de re­gu­la­ção, mas de ga­ran­tir sua ob­ser­vân­cia.
Por ini­cia­ti­va do go­ver­no bra­si­lei­ro, os di­ri­gen­tes do G-20 se com­pro­me­te­ram a de­sem­per­rar até o fi­nal de 2008 as ne­go­cia­ções so­bre co­mér­cio glo­bal no âm­bi­to da Ro­da­da Do­ha. Não há o que res­pon­der dian­te do fra­cas­so re­tum­ban­te des­se ­item. Nin­guém ten­tou re­to­mar as ne­go­cia­ções.
Se as de­ci­sões dos lí­de­res glo­bais têm es­se tra­ta­men­to, que sen­ti­do fa­zem, afi­nal, es­sas ini­cia­ti­vas? Ou se­rá que a eco­no­mia glo­bal é as­sim mes­mo, imu­ne a po­lí­ti­cas de coor­de­na­ção glo­bal?
Confira
Foi ­ruim - A que­da da pro­du­ção in­dus­trial em no­vem­bro foi for­te, co­mo se ima­gi­na­va (de 5,2% em re­la­ção a ou­tu­bro). Mas de­ve ter si­do o ­pior mês do ano. Em de­zem­bro, a si­tua­ção não pio­rou e po­de es­tar me­lho­ran­do al­gu­ma coi­sa em ja­nei­ro.

mockup