CELSO MING
É continuar tomando o chopinho de sempre, sem dar muita trela para essa gente que só fala de crise - recomenda o presidente Lula. E ontem mesmo ele disse, na reunião com o comitê gestor do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), que ''é questão de honra manter nossa economia aquecida...'', como se essas coisas devessem ser tratadas como ponto de honra.
É dever de todo dirigente político manter elevado o moral de sua gente e, mais do que isso, tomar decisões que revertam uma adversidade qualquer. Mas não dá para ignorar os fatos. O nível de incerteza hoje é tão grande que não dá para recomendar despreocupação. E isso significa que não há condições de prever com segurança o que vem pela frente. É possível que, dentro de alguns meses, a crise tenha ficado para trás. Mas é apenas uma possibilidade. A maioria das apostas é de que o mundo passará por forte e prolongada recessão. Se for isso, haverá perda de patrimônio, de renda, desemprego e por aí. E isso pede mais cautela de qualquer pessoa.
Enfim, não dá para sair pro chope como se nada estivesse acontecendo. O governo Lula bem que está tentando armar políticas anticíclicas. Mas, enquanto ele faz o que tem de ser feito, para as pessoas comuns a hora é de sair de capa e guarda-chuva. E isso vale para instituições, empresas e qualquer um de nós. É como um seguro para ser usado em caso de sinistro. Se não vier a ser necessário, melhor; se for, haverá proteção provida a tempo.
Talvez o presidente Lula queira evitar cautela exagerada. Se todos reduzirem sua disposição de usar o cartão de crédito, cairão o consumo, a produção, o faturamento das empresas, o emprego, o salário... E cairão a arrecadação e as despesas públicas. E aí entramos na questão política.
Lula tem um problema. Imaginava que poderia eleger facilmente seu sucessor, graças a seu prestígio pessoal e aos bons ventos da economia. As eleições municipais mostraram que voto não se transfere. Assim, o que será, em 2010, do candidato do governo, num ambiente de paradeira e da insatisfação que virá com ela?
Se já era difícil convencer o eleitor a votar na Mãe do PAC, imagine-se o que seria com o PAC empacado e com o sistema produtivo quase empacado.A economia brasileira está bem ancorada. Cresce mais de 5% e isso garante bom arrasto para 2009. Tem reservas de US$ 205 bilhões; é credora líquida em dólares e detém uma dívida pública em reais que provavelmente fechará o ano abaixo dos 40% do PIB. Não é pouca coisa.
No entanto, são notórias as incertezas no câmbio, no crédito, no comércio exterior e no nível dos investimentos. O produtor e o comerciante já não sabem que preço etiquetar na mercadoria. Os bancos não têm problemas patrimoniais, mas há dezenas de pequenos e médios com problemas de caixa. A construção civil e a indústria automobilística, dois dos motores da economia, passam por forte desaceleração.
Diante desse quadro, não é hora de extravagâncias. O mínimo que qualquer administrador de patrimônio tem de fazer é operar suas disponibilidades de modo a deixar alguma folga para o imponderável e as surpresas de horas assim.
E, dados os trâmites por encaminhados, se você optar por bom chope, não dirija.





