Wall Street está mudada
O castigo dos mercados a quem falhou foi implacável, como convém, mas poderia ter sido pior. Afinal, o índice Dow Jones da Bolsa de Nova York caiu ontem apenas 4,4% - para ficar com o mais heráldico indicador do mercado. Mas nada indica que o ajuste esteja perto do fim. O passivo derretido do Lehman Brothers alcançava US$ 613 bilhões e mais instituições financeiras podem ter sido avariadas com o desfecho tramado pelas autoridades dos Estados Unidos.
  A paisagem de Wall Street está mudada. Dois dos cinco maiores e mais tradicionais bancos de investimento americanos (o Bear Stearns e o Lehman) estão sendo riscados do mapa.O episódio deixa questões colossais sem resposta. Por que, por exemplo, instituições que pareciam carregar as mesmas mazelas mereceram tratamento melhor? Enfim, por que os ativos do Bear tiveram socorro oficial e os do Lehman não? E não estamos falando das megaagências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, que são Government-Sponsored Enterprises (GSE) e têm assistência oficial garantida.
  A decisão de abandonar o Lehman à própria sorte muda o padrão adotado até agora. Mas qual é a linha divisória para a diferença de tratamento? Quando devem ser usados recursos do contribuinte para salvar instituições quebradas e quando não devem?
  Responder que o critério nessa hora é evitar crise sistêmica (quebra em cascata) é miseravelmente escapista. Por que, então, a quebra do Bear levaria a isso e a do Lehman, não? Responder que é preciso, em alguma medida, respeitar o princípio do risco e do que a ele se segue (castigo ou recompensa) pouco esclarece. Desde tempos imemoriais, é parte da cultura ocidental a idéia de que, sempre que há tensão entre o céu e a terra, uma vítima importante deve ser sacrificada. Assim foi feito. Pouparam o novilho do Bear, mas queimaram o do Lehman no altar de Moloque. Mas por quê?
As autoridades argumentam que em março, quando do episódio do Bear, o mercado não estava preparado para o que ocorreria e, então, foi preciso fazer o que se fez. Agora, dizem, é diferente: quem se preparou se preparou, e quem não, que assuma as conseqüências. Vá saber...
Uma das conseqüências da quebra do Lehman é o estrangulamento ainda maior do crédito mundial. Os bancos globais, que já estavam fechados sobre si mesmos, redobrarão suas prioridades para o cuidado com as próprias feridas.
  O Brasil está no meio do incêndio, mas em condições muito melhores do que há alguns anos. Poderá ser atingido de três formas: pela queda das exportações, que se seguirá a novas quedas de preços das commodities; pelo aumento das remessas de lucros por parte das filiais estrangeiras; e pelo estancamento do crédito.
  Por um bom tempo os investidores contarão até cem antes de empurrar mais dinheiro para capitalizar empresas brasileiras. Elas terão de acorrer ao crédito bancário daqui e do exterior. E não vai sobrar para todas. Muitos investimentos que estavam no forno talvez sejam adiados.
  Este poderá vir a ser o principal canal de desaceleração do crescimento. Talvez não saia barato, mas, no fim do processo, o País estará melhor.

Confira
  É hoje - O Comitê de Política Monetária (Fomc, na sigla em inglês), do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), se reúne em plena crise para decidir o que fazer com os juros, hoje de 2,0% ao ano.
  Até a quebra do Lehman, ninguém apostava em novo corte dos juros, que já são negativos. Agora, esta é uma hipótese com que o mercado financeiro passou a trabalhar.
  Falta saber que efeito teria outro corte, de 0,25 ponto ou de 0,5 ponto. Talvez não fizesse diferença em termos ‘‘físicos’’. Mas poderia ser dado como recado de que o Fed continua disposto a apagar incêndios.

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