Comprando tempo

O socorro do Tesouro americano às megaagências hipotecárias dos Estados Unidos, Fannie Mae e Freddie Mac, vem carregado de contradições e pode ser insuficiente. O secretário do Tesouro, Henry Paulson, assegurou que pode chegar a US$ 200 bilhões em compra de ações preferenciais e créditos especiais, para que se mantenha em pé o mercado de hipotecas que há mais de um ano ameaça vir abaixo. Mas o objetivo declarado é evitar o alastramento de uma crise sistêmica no mercado financeiro do país.

Em julho, o Congresso americano já havia autorizado a intervenção. Mas, na ocasião, mostrando sua falta de convicção no avanço desse passo, Paulson avisara que se tratava de uma lei que o executivo provavelmente não usaria.

Fannie e Freddie são empresas de capital privado que operam num mercado de alta carga social - e política. Seu objetivo é garantir ou recomprar hipotecas. Sua carteira conjunta de ativos totaliza aproximadamente US$ 5,4 trilhões, pouco menos da metade de todo o mercado americano de hipotecas.

A intervenção corresponde a um movimento de estatização disfarçada, feita com ações preferenciais. Não é um conflito plenamente resolvido. O governo exige que os interesses dos acionistas privados sejam postergados. As duas agências estão obrigadas a dar prioridade ao pagamento de juros e ao resgate de hipotecas e não mais a distribuir dividendos aos acionistas.

Além disso, a participação dos acionistas privados no capital ficará diluída para alguma coisa em torno de 20%. E esta é a principal razão pela qual, depois de anunciada a intervenção, as cotações das ações derreteram ontem mais de 80%.

O simples pressuposto de que a importante função social das agências obrigaria o governo a socorrê-las nas emergências parece ter sido motivo para que não tivessem sido irrepreensivelmente administradas até agora.

O secretário Paulson vinha garantindo que, no caso, seria evitado o risco moral (moral hazard), que é o uso de recursos públicos para resgatar interesses privados mal administrados, fato que, por si só, pode induzir à má governança, no pressuposto de que, na crise, o Estado sempre acabará correndo para resolver o problema. E foi o que de fato acabou de acontecer. Formalmente, as agências continuam privadas.

Outra questão consiste em saber se o despejo de recursos e as demais providências administrativas agora tomadas serão suficientes para reverter a crise. A primeira reação do mercado foi de euforia e parecia indicar que esse era o entendimento geral. Mas não há nenhuma garantia de que isso aconteça.

Os preços dos imóveis nos Estados Unidos continuam em queda livre, sem sinais de reversão. Isso significa que mutuários vão pagando financiamentos habitacionais crescentemente mais altos do que o valor dos seus imóveis. E nada mais destruidor do sonho da casa própria do que uma percepção assim.

Ficou consagrado o princípio de que o Tesouro é o emprestador de última instância. Mas isso pode exigir mais e mais recursos. Enfim, essa decisão pode estar apenas comprando tempo - e a boa vontade dos eleitores às vésperas da escolha do novo presidente do país.


Confira

Disparou - O anúncio do socorro oficial das superagências hipotecárias dos Estados Unidos empurrou o dólar à cotação máxima em euros dos últimos 11 meses. Esta foi uma das razões pelas quais os preços das commodities voltaram a cair.

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