Depois de passar anos denunciando o que entendeu como ‘‘privataria do tucanato’’, o governo Lula vai, afinal, chegando à conclusão de que é preciso não só reforçar as Parcerias Público-Privadas (PPPs), mas transferir para a iniciativa privada os investimentos e a administração de alguns dos principais aeroportos brasileiros, como Galeão e Viracopos.
  Mas o risco é o de que, em vez de reconstruir o sistema aeroportuário sobre novas e sólidas bases, o governo se limite a produzir gambiarras, que talvez adiem o colapso, mas, em compensação, o tornariam mais destrutivo. A Infraero passou anos rejeitando qualquer tentativa de contar com a iniciativa privada na administração dos aeroportos. Um após o outro, seus diretores refugavam: ‘‘Eles querem Cumbica e Galeão para nos deixar Xiririca, onde não acontece nada. Querem o filé mignon e nos empurram a carne de pescoço.’’
  Seu presidente, Sérgio Gaudenzi, continua bramindo argumentos assim, mas já não pode esconder que o setor público não dispõe dos recursos necessários para sustar o atual processo de decomposição e, além disso, expandir e modernizar a infra-estrutura do setor. E admite que o Brasil não tem aeroportos em condições para sediar eventos do porte de uma Copa do Mundo.
  O maior risco que corre o governo é ver apenas um pedaço das coisas como no setor do petróleo. Acha que a redenção chegou só porque a Petrobrás descobriu o que há no pré-sal. Não é verdade que na descida em direção a 7 mil metros de profundidade todo santo ajuda, como vem repetindo o presidente Lula. Por conta de uma galinha que realmente existe, mas que precisa ser primeiro alimentada com centenas de bilhões de dólares em investimentos, Lula já vai contando com reluzentes ovos de ouro, que serviriam para tudo: acabar com a pobreza; financiar a educação; locupletar as finanças públicas com royalties e contribuições especiais; e pavimentar o futuro do povo brasileiro. Assim também na questão do tráfego aéreo.
  Não basta encontrar solução para dois aeroportos se tudo mais continuar na penúria e, de resto, administrado com estreiteza de mente. O presidente da Infraero tem lá alguma razão quando torce o nariz ao lhe ser determinado que vai perder o Galeão, Viracopos e o que virá depois. É preciso ver qual será o modelo por inteiro, que condições terá de se manter em pé e como evitar que conflitos entre interesses públicos e privados corroam a rede. É preciso, também, definir que papel caberá à Infraero. Não pode ela continuar a servir de caixa para emergências ou esquemas paralelos dos políticos.
  Na questão aeroportuária não cabem remendos isolados. Regimes diferentes de administração aumentam o grau de conflitos. E se o que tiver de ser feito em Xiririca tiver de ser tirado do faturamento de aeroportos rentáveis, o futuro para a infra-estrutura do setor corre perigo.
  E isso não é tudo. Além de regras claras e consistentes de jogo, é preciso dar força para a Anac e não seguir com o desmanche de todo o sistema regulador, como colocado em prática pelo governo Lula.
  Enfim, repassar o Galeão e Viracopos para a iniciativa privada sem reconstruir o sistema inteiro pode agravar o problema e não melhorá-lo.

Confira
  Solução à vista? Se for confirmada hoje uma solução para o rombo das duas megaagências hipotecárias dos Estados Unidos, Fannie Mae e Freddie Mac, o mau humor dos mercados pode virar de uma vez.
  O rombo é enorme. Essas duas empresas são responsáveis pelo financiamento ou pela recompra de quase US$ 6 trilhões em hipotecas, cerca de metade do mercado.
  O risco é o de que esta seja, outra vez, apenas uma meia solução. Em todo o caso, casa própria é um dos sonhos americanos e os Estados Unidos estão em campanha eleitoral. Tudo pode acontecer.

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