CELSO MING
Operação cata carrapatos
Quem foi atrás de novidade macroeconômica ficou frustrado. A entrevista do ministro da Fazenda, Antônio Palocci, cumpriu objetivos políticos e, como tal, foi bem-sucedida. E isso é quase tudo. Enxergar aí pretexto para substituição no Banco Central não tem cabimento.
Tem uma hora em que é preciso fazer uma limpeza na vaca. E foi o que Palocci se propôs a fazer terça-feira. Um a um, extirpou os carrapatos que vinham incomodando a política econômica do governo. Mas talvez tenha, inadvertidamente, deixado lá um deles.
Não dá para dizer que exista no País uma oposição organizada à atual política econômica. Existe gente que reclama dos juros altos e, entre eles, estão não apenas os empresários de sempre, mas até mesmo o vice-presidente da República, José Alencar, fuzileiro de primeira hora de ''fogo amigo''. Outros se queixam de que faltam recursos para investimentos e para a cobertura de políticas sociais e, nesse contexto, reclamam das proporções do superávit primário de 4,25% do PIB (R$ 66,2 bilhões), que vêm sendo poupados anualmente para pagar a dívida. Outros arriscam críticas ao sistema de metas de inflação, sem no entanto propor algo mais confiável que ocupe seu lugar.
Sem opção
Lá de vez em quando aparece alguém sugerindo que ''um pouco mais de inflação não deixa ninguém aleijado'' e nesse grupo encontram-se desde o professor Celso Furtado até o ex-secretário da Fazenda do Estado de São Paulo, Yoshiaki Nakano. Há também os que gostariam de que o Banco Central empilhasse mais reservas ou induzisse uma desvalorização cambial maior. E não podemos alijar desse sopão de críticos a esquerda radical, para quem a política econômica do governo Lula não passa de neoliberalismo deslavado.
No entanto, não há no País nenhum grupo politicamente significativo que proponha um modelo econômico consistente que possa substituir ''tudo isso que está aí''. Não basta reclamar que ''os banheiros vão ficar um pouco acanhados''. É preciso compor cada peça dentro de um todo que, por sua vez, tem de levar em conta as condições do terreno disponível para a construção.
É por isso que o ministro da Fazenda não pode dizer outra coisa senão o que disse: que a política monetária não vai mudar; que o superávit primário não pode ser menor; e que a administração da dívida pública está sendo bem conduzida.
Mas é preciso analisar melhor duas de suas afirmações. A primeira é a de que o projeto que confere autonomia do Banco Central não está entre as prioridades do momento. E a segunda, a de que a natureza da estocada inflacionária de janeiro é meramente sazonal.
Ao afirmar que não há pressa para institucionalizar a autonomia operacional do Banco Central, Palocci apega-se às atuais circunstâncias de acordo com as quais as autoridades monetárias vêm podendo perseguir as metas de inflação com inteira liberdade. No entanto, se, na prática, o Banco Central vem contando com um bom nível de autonomia e se uma lei definitiva não está fazendo falta, boa parte do mérito disso deve ser creditado ao comportamento do atual governo, que tem deixado que o Banco Central trabalhe em paz.
Coroa
O problema é que essa garantia não pode ficar indefinidamente ancorada numa autoridade pessoal. Mais dia menos dia, o BC pode cair na mão de políticos que adoram gastar e para os quais uma moeda confiável não passa de ''tese acadêmica'' como já disse o presidente Lula. Brasileiros atentos, como Palocci, conhecem esse jogo e só insistem na autonomia operacional o quanto antes porque aprenderam com D. João VI que é recomendável garantir a posse de uma coroa antes que um aventureiro dela lance mão.
O outro tema é o da inflação deste início de ano. Na ânsia de tranquilizar o mercado, o ministro acabou trombando involuntariamente com o Banco Central. A ata do Copom mostrou que as autoridades da área monetária passaram a ter dúvidas sobre a natureza dessa inflação. Lá ficou dito que não há segurança sobre o caráter meramente sazonal da estocada de preços das últimas semanas. E essa foi a principal razão pela qual o Copom manteve os juros no nível em que estavam.
No entanto, sem vacilação, o ministro Palocci disse que essa inflação é meramente sazonal e nisso não apenas discordou do diagnóstico do Banco Central como pareceu destruir o argumento que fundamentava a manutenção do nível dos juros.
Mas, convenhamos, aí Palocci não estava se pronunciando com o rigor técnico fundamentado em ata e tudo o mais. Apenas pretendeu parar o choro da criança com um ''não foi nada meu bem; isso passa logo''.
Infelizmente, deixou a impressão de ter sido descuidado com as expressões usadas e isso pode ter produzido mais calor do que luz.





