O rombo do império

Para justificar um rombo histórico de US$ 521 bilhões no orçamento do ano fiscal dos Estados Unidos que começa em outubro o presidente Bush apontou quatro prioridades de seu governo: ''Ganhar a guerra contra o terror; proteger o solo pátrio; garantir educação para nossos filhos; e um plano assistencial moderno (Medicare) para nossos velhos.''

O projeto orçamentário foi saudado assim por alguns dos mais influentes jornais do mundo: ''orçamento falso'' (Washington Post), ''orçamento Pinóquio'' (The New York Times); ''farra fiscal'' (Financial Times)...

Quer dizer, além de paquidérmico (despesas de US$ 2,4 trilhões), esse orçamento esconde coisas - porque tem tudo para ficar ainda maior. E, é claro, produzirá impacto sobre a economia brasileira.

No ano 2000, ainda no governo Clinton, os especialistas estavam diante de uma charada de boa qualidade: a perspectiva de um superávit de pelo menos US$ 1,9 trilhão, a ser acumulado ao longo da primeira década do século 21. Os especialistas discutiam sobre o que fazer para resolvê-la. Uns recomendavam recompra de dívida pública; outros, devolução de dinheiro aos contribuintes ou redução dos impostos; outros ainda, que melhor seria esterilizar esse dinheiro, de maneira a revalorizar o dólar...

Fole

O presidente do Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos), Alan Greenspan, por exemplo, argumentou que a recompra de títulos do Tesouro dos Estados Unidos poderia criar mais um problema: o de deixar o Fed sem títulos com que operar seu fole monetário - o mesmo que despeja ou enxuga volume de moeda por meio da venda ou da compra de títulos públicos. ''Teremos de manejar a política monetária com títulos privados'' chegou a dizer aos congressistas.

Mas, depois de uma apuração eleitoral confusa, George Bush chegou à Casa Branca. Aparentemente, julgou que poderia ''comprar'' a legitimidade que lhe faltava com uma operação devolução de impostos. Depois aconteceram, simultânea ou sucessivamente, o estouro da bolha de Wall Street, o mergulho na recessão, os atentados de 11 de setembro, a campanha do Afeganistão e a Guerra do Iraque todos eles, enormes sorvedouros de recursos.

E, agora, estamos em fevereiro de 2004, com esse orçamento feito sob medida para um ano eleitoral. Há nele enfiados pelo menos três narizes de Pinóquio. O primeiro é o de que não prevê despesas adicionais de guerra e de segurança externa. O segundo está na afirmação de que esse déficit será reduzido à metade (US$ 239 bilhões) em 2009, ano em que somente a devolução de impostos vai custar US$ 183 bilhões. E o terceiro o de que não prevê o impacto fiscal das aposentadorias em massa da geração ''baby-boom'', o forte crescimento populacional do período pós-guerra.

Furo

O próprio Bush havia garantido há dois anos que o novo orçamento não teria um buraco superior a US$ 14 bilhões, uma lorota antiga que já se encarregara de tirar credibilidade ao governo Bush também em questões fiscais.

Este déficit recorde não está isolado. Em paralelo a ele corre seu irmão gêmeo, o déficit em conta corrente que é o capítulo do balanço de pagamentos onde são lançadas receitas e despesas com o exterior, excluídos daí apenas os fluxos de capital, que vão para uma conta à parte. Pois o déficit em conta corrente deverá alcançar neste ano (até dezembro) a bagatela de US$ 550 bilhões. Os dois déficits são considerados gêmeos porque são alimentados simultaneamente pelo mesmo útero, as impressionantes despesas fiscais dos Estados Unidos: mais despesas de governo atiçam o consumo que, por sua vez, turbina as importações.

Esse conjunto de rombos não pode ser considerado apenas ''uma encrenca lá dos gringos'', porque despeja chuvas e trovoadas também sobre nós. Será inevitável que o Tesouro dos Estados Unidos aumente sua emissão de títulos públicos destinados a financiar o saldo negativo crescente. Outro preço a pagar é mais inflação. Basta essa combinação para abreviar os dias dos juros baixos nos Estados Unidos. A alta dos juros internacionais, por sua vez, tende a provocar alguma rejeição dos títulos dos países emergentes, entre os quais estarão os do Brasil e aí já estamos no nosso quintal.

Não falta quem veja as coisas com outros olhos. Ontem, John Kasich, diretor do Lehman Brothers Investment Group, sugeriu no HoustonChronicle, do Texas, terra de Bush, a eliminação dos subsídios agrícolas como medida (entre outras) destinada a derrubar o déficit-monstro.

Que bom seria se um dos subprodutos dessa farra fiscal fosse a volta da racionalidade na produção agrícola americana, algo que beneficiaria a economia brasileira. Mas já é sonhar demais.

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