Ceasa tenta negociar com Grupo Sonae
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terça-feira, 30 de março de 1999
Vânia Casado 
O presidente da Central Atacadista do Paraná (Ceasa), José Lupion Neto, tentou negociar, ontem, com o grupo português Sonae, que comprou recentemente as redes de supermercados Big, Real e Mercadorama, uma prorrogação no prazo para assinatura dos contratos que impõem descontos que vão até 16% nas compras de verduras e legumes feitas pela rede, junto aos pequenos e médios produtores da região metropolitana de Curitiba . Os produtores foram surpreendidos com a apresentação dos contratos por parte dos compradores do Mercadorama, na última quinta-feira, e o prazo final para assinatura vence hoje, 31.
Até o final da tarde, Lupion não tinha obtido nenhuma resposta por parte da direção da rede, sediada em Porto Alegre (RS), embora o representante do Mercadorama em Curitiba, Sérgio Rezende, disse que a empresa estava disposta a aceitar a prorrogação para assinatura dos contratos para 15 de abril. Rezende afirmou essa disposição durante reunião realizada na Ceasa com cerca de 10 entidades representativas de produtores. Mas condicionou a prorrogação do prazo à palavara final da direção da rede.
Para Lupion Neto o contrato que está sendo imposto aos produtores e atacadistas que fornecem hortigranjeiros aos supermercados da rede em Curitiba é draconiano, e só beneficia a uma parte, no caso à rede Sonae e está deixando os produtores apavorados. O presidente da Ceasa disse que está preocupado com o sistema de cobrança e imposição de tabelas de descontos junto aos fornecedores por parte de um grupo supermercadista, que segundo ele, está controlando 70% do mercado varejista de Curitiba.
Lupion está propondo aos produtores e fornecedores, que estão sendo pressionados pela rede Sonae que negociem em bloco, para que sejam mais fortalecidos. Se mantiverem o comportamento individual, em pouco tempo terão sua margem de lucro aniquilada e excluídos do processo de produção, aconselhou.
Segundo Lupion, não é porque o Sonae é um grupo estrangeiro e vai impor suas regras sem dialogar com os fornecedores. Ele defendeu a negociação e disse que a Ceasa está disposta a representar os produtores e atacadistas nesse embate. São aproximadamente 115 agricultores e 75 comerciantes atacadistas que estão sendo ameaçados de serem descredenciados como fornecedores do grupo Sonae, caso não assinem os contratos que estão sendo impostos.
Enquanto a reunião estava ocorrendo na sede da Ceasa, a Folha apurou que os compradores da rede Mercadorama intensificaram o assédio junto aos produtores, nas propriedades, para que assinassem o quanto antes o contrato. Segundo Lupion, o contrato está sendo apresentado em duas páginas, escritas em letras miúdas, com 13 cláusulas e 5 adendos, de difícil entendimento por parte dos produtores.
Na condição de vice-presidente da Associação Brasileira de Centrais Atacadistas (Abracem), Lupion vai propor a discussão do assunto entre as centrais do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. A próxima reunião da Abracem ocorre no dia 14, em São Paulo. O objetivo é extrair uma posição única das centrais atacadistas dos demais estados frente à esse comportamento agressivo das redes internacionais de supermercados.
A rede Sonae está implantando uma nova tabela de descontos, retroativa a janeiro de 1999. Nela está incluída uma série de descontos sobre o valor de venda dos produtos, que atingem 16%. Diante dessa nova sistemática, os fornecedores passam a contribuir com 2% a título de publicidade do grupo supermercadista, 6% de rappel, recurso que o grupo Sonae está cobrando dos fornecedores à título de investimentos em infra-estrutura e expansão da rede e 5,5% de taxa que permite o fornecedor utilizar a estrutura da Central de Distribuição da rede para entregar os produtos e mais 2,5% de imposto pela emissão da nota do produtor rural.
Além disso, a rede Sonae está ampliando o prazo de pagamento para 50 dias e fixando um período de 10 dias para devolução das mercadorias. Como devolver uma mercadoria perecível depois desse prazo e afirmar que o produto não estava em condições de ser vendido?,perguntou. Lupion disse que não entende essa lógica das grandes redes internacionais, onde o custo tem que ser coberto pelos fornecedores e o dinheiro delas sai limpo.
A diretoria da rede Sonae ainda não se manifestou a respeito do assunto. A Folha tentou falar com o representante do Mercadorama, Sérgio Rezende, que compareceu à reunião na Ceasa, mas ele não quis dar declarações. A assessoria de imprensa também foi contactada, mas até o fechamento desta edição não havia respondido.


