O ex-ministro da Economia da Argentina, o liberal Domingo Cavallo, teria aceito ontem entrar para o governo de Fernando de la Rúa, como chefe de Gabinete, segundo fontes governamentais citadas pelo canal a cabo TN.
O até agora chefe de gabinete, Chrystian Colombo, ocupará o Ministerio do Interior, deixado por Federico Storani, e o ministro da Economia, Ricardo López Murphy, conservaria sua pasta.
Cavallo deixou Santiago ontem de manhã para regressar a Buenos Aires com urgência. Ele assistia a conferências organizadas paralelamente à assembléia anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Durante a reunião do BID, o pacote argentino anunciado na sexta-feira pelo ministro da Economia Ricardo López Murphy, foi um assunto bastante comentado. ‘‘É coerente com o que vinha sendo anunciado e com o que vem sendo feito’’ na Argentina’’, disse o ministro do Planejamento, Martus Tavares. O ministro brasileiro disse esperar que as medidas acalmem o mercado.
Entre os participantes da reunião do BID, há um quase consenso em relação à necessidade do ajuste fiscal na Argentina. As preocupações concentram-se na capacidade do presidente Fernando de la Rúa de arregimentar apoio político.
‘‘Creio que o problema na Argentina agora esteja mais no plano político do que no econômico’’, disse Enrique Iglesias, presidente do BID. ‘‘Os argentinos nunca solucionaram o problema do déficit fiscal’’, recorda o senador Edgardo Böeninger, da Democracia Cristã chilena, secretário-geral da Presidência no governo Patricio Aylwin. ‘‘Parece que, por não terem aceitado sacrifício de grau 1, agora terão de fazer sacrifício grau 10.’’
Ontem, López Murphy afirmou que buscará ‘‘apoio da opinião pública’’ ao novo plano econômico que prevê uma forte redução do gasto público, confiante em que seu programa é viável, mas que de nada servirá, se o sistema político está descomposto.
‘‘Confio em que o programa é tecnicamente viável. Acho que tudo o que fizermos não terá efeito se o sistema político está descomposto. Sou um político e ajo como tal: busco convencer as pessoas de que isto é o melhor que podemos fazer’’, acrescentou.
O ministro disse que estava ‘‘consciente’’ da crise que suas medidas poderiam provocar no Poder Executivo, mas afirmou que foram adotadas com critério político. ‘‘Sei que a política de cortar gastos não é a que prefere a comunidade política. É mais simples aumentar impostos, mas eu creio que isso seja contraproducente e muito mais agora’’, insistiu.
Em relação à sua eventual demissão, ante o clima gerado por seu plano, assegurou que se o presidente Fernando de la Rúa acredita que o que propõe é extremamente conflitivo e ineficiente para os dilemas que o país enfrenta, ele estaria disposto a dar um passo atrás. ‘‘Mas também estou disposto a lutar.’’
Sobre o corte de gastos para a educação – um tema muito sensível na Argentina, onde a educação pública e gratuita tem uma tradição e qualidade reconhecidas –, assegurou que ‘‘é a única maneira’’ de forçar as províncias a realizarem um ajuste. Acrescentou que ‘‘é muito mais cômodo seguir recebendo dinheiro da Nação ou emitir dívida. Mas isso acabou. Não pode mais’’.
Das 24 províncias argentinas, 14 são governadas pelo opositor Partido Justicialista (PJ) que já se posicionou contra as medidas.

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