Cavallo defende câmbio fixo para o Brasil
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sexta-feira, 29 de janeiro de 1999
Agência Estado 
O Brasil tem reservas suficientes para adotar um regime de câmbio fixo como o da Argentina e de Hong Kong, segundo o criador do sistema argentino, o ex-ministro Domingo Cavallo, e o professor Rudiger Dornbusch, do Instituto de Tecnologia de Massachussetts. As reservas cambiais brasileiras bastariam para estabelecer o câmbio a R$ 1,50 por dólar e dariam com sobra, portanto, se o governo preferisse uma taxa de R$ 2, disse Cavallo.
As reservas brasileiras devem estar superestimadas, segundo Dornbusch, mas, ainda assim, permitiriam a criação de um currency board, organismo responsável pela administração monetária nos países com o regime de câmbio atrelado a uma moeda estrangeira. O País poderia, acrescentou, usar para isso o financiamento canalizado pelo FMI. Mas isso dependerá, disse Dornbusch, da disposição de agir com seriedade. Se quiserem ser tolos, perderão o dinheiro.
O governo brasileiro adotou a pior estratégia ao anunciar a flutuação suja, isto é, sujeita a intervenções do Banco Central, disse Cavallo. Só há duas formas razoáveis de tratar o câmbio, segundo ele. Uma delas é criar um currency board, fazendo a política monetária depender da variação das reservas (quando aumentam, emite-se moeda nacional, quando diminuem, corta-se automaticamente a oferta de dinheiro). A outra forma é a flutuação limpa, mas o governo tem de estar preparado para aceitar todas as consequências da instabilidade cambial. No Brasil, afirmou Cavallo, não parece haver sustentação política suficiente para uma política desse tipo. A solução, portanto, é a outra. Ele disse ter conversado muitas vezes sobre o assunto com autoridades brasileiras, sem ter conseguido convencê-las. Não houve conversas recentes, acrescentou. Mas o governo brasileiro, conclui, acabará sendo convencido pela realidade.
Se adotar o currency board, afirmou Cavallo, o governo brasileiro deverá, como é normal nessas condições, admitir transações tanto com o real quanto com o dólar. Eliminada a incerteza, o Tesouro, segundo ele, conseguirá financiar sua dívida gastando o equivalente a 3,5% do PIB, em vez de algo próximo de 9,5%. A aprovação, pelo Congresso, de todas as medidas de ajuste fiscal propostas pelo presidente Fernando Henrique Cardoso poderá proporcionar um superávit orçamentário de uns 2,5% do PIB. O déficit total, portanto, poderá cair para cerca de 1% do PIB.
O economista Charles Dallara, diretor do Instituto de Finanças Internacionais, um organismo com base nos Estados Unidos, manifestou dúvida quando à credibilidade do governo brasileiro, neste momento, para adotar o currency board. Além disso, no momento há um claro overshotting (exagero) na desvalorização do real. Dentro de algum tempo, câmbio e juros poderão retornar a níveis mais razoáveis, observou. A partir daí, acrescentou, talvez seja o caso de examinar a mudança do regime cambial.
Dornbusch foi duro. Não houve surpresa, segundo ele, na desvalorização do real, porque deveria ocorrer em algum momento. A depreciação, disse, refletiu a má administração do câmbio, o desequilíbrio fiscal e um débito público de prazo muito curto, com vencimentos no overnight. A crise demorou a chegar, neste momento a desvalorização é exadada e a instabilidade poderá ser prolongada, acrescentou. Também sobraram críticas para o FMI, como defensor de más políticas. O diretor-gerente Michel Camdessus deveria ter sido já demitido, como seria normal em qualquer empresa, completou Dornbusch.
O caso brasileiro foi discutido ontem numa entrevista coletiva de Dornbusch, destinada a uma avaliação das perspectivas econômicas mundiais. Foi tratado também numa grande sessão especial de atualização econômica, da qual participou, juntamente com cinco outros economistas de várias nacionalidades, o ex-ministro Domingo Cavallo. O risco de contágio da crise brasileira foi um dos fatores de inquietação mencionados, no início da sessão, pelo moderador dos debates, o economista Charles Dallara.
O Brasil será discutido ainda noutras sessões e só uma autoridade federal de primeiro escalão está em Davos, para apresentar as opiniões e argumentos do governo brasileiro. É o chanceler Luiz Felipe Lampreia. Na quarta-feira à noite o ministro Pedro Malan oficializou a decisão de ficar em Brasília, embora estivesse escalado para três eventos.


