Cautela demais
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sexta-feira, 02 de fevereiro de 2018
Fábio Galiotto<br>Reportagem Local 

O brasileiro, quando investe, é conservador nas escolhas e acaba com baixo rendimento. Apenas quatro em cada dez dizem ter sobra de recursos em conta no fim do mês e, destes, mais 58% escolhem a poupança, o CDB ou o Tesouro Direto como aplicações financeiras, conforme o estudo "Vamos falar de investimentos", feito pela Allgoo, fintech especializada na digitalização de instituições do setor.
A falta de informação sobre o tema e o medo de colocar o dinheiro nas mãos de consultores são os principais motivos para o conservadorismo, dizem analistas. E, pior do que os 29% que deixam o dinheiro na poupança e dos 27% que escolhem o CDB e os títulos do Tesouro, 19% afirmam que deixam os recursos na conta corrente, o que implica em não ter qualquer rendimento.
Com a internet como maior fonte de informações, o brasileiro tem começado a desbravar o mercado, diz o COO (diretor de operações, na sigla em inglês) da Allgoo, Rodrigo Soeiro Ubaldo. "Por muito tempo, o setor financeiro se vendia como algo complexo para valorizar o próprio trabalho e temos hoje fintechs que tornam esse vocabulário mais acessível aos leigos", afirma.

Os bancos são o porto seguro para os conservadores, mas 48% dos entrevistados no estudo da Allgoo não confiam nas orientações dos gerentes. Ubaldo diz que esses profissionais têm metas de venda de produtos e podem fazer investimentos apenas dentro da própria instituição, o que muitas vezes é desvantajoso em relação a opções tão seguras quanto. Nos maiores bancos, que são mais sólidos, a tendência é o CDB pagar menos do que financeiras menores.
A planejadora financeira Juliana Sitta de Queiroz, certificada pela Associação Brasileira de Planejadores Financeiros, afirma que a desinformação faz o brasileiro pegar os produtos que estão prontos nas "prateleiras" dos bancos. "O brasileiro tem desconfiança em produtos diferenciados, mas, no geral, acredita no sistema como um todo e aplica nos bancos porque o sistema é bem regulamentado", diz.
Contudo, muitas corretoras não estão abertas ao pequeno investidor. Ubaldo considera que um consultor consegue trabalhar com cerca de 40 contas e a remuneração costuma ser maior em grandes aplicações, o que afastou, por tempos, os pequenos e médios das opções mais rentáveis. Não é mais assim. "O que não pode é a pessoa sair do desconhecimento para o mercado de ações, por exemplo, que é o mais arriscado. Mas, com uma pesquisa na internet e a ajuda de consultores e robôs, é possível chegar aos fundos de investimentos, que expõem o indivíduo a um menor risco por diluir as aplicações", sugere o COO da Allgoo.
Apesar de considerar o CDB e o Tesouro como conservadores, ele diz que se tratam dos primeiros degraus para um investidor. A sugestão dele é usar sites que comparam a rentabilidade do CDB de cada instituição, por exemplo, para ter melhor rendimento. "São os primeiros passos para tatear o mercado de investimentos e é possível começar com pouco, R$ 100, para aprender o funcionamento e, depois, definir o grau de patrimônio que deseja investir e o tamanho do risco", cita Ubaldo.
Para valores acima de R$ 50 mil, ele já sugere a busca por um assessor. "Não se pode colocar em risco o patrimônio obtido em uma vida e existem muitos agentes autônomos que fazem esse trabalho", afirma. "O mais importante de tudo é começar, ou a pessoa vai passar uma vida correndo atrás de dinheiro", completa.
'Falta tempo e confiança para me arriscar'
A empresária Cristina Santos ainda é adepta do CDB para garantir rendimento ao capital de giro da Imageria Comunicação, da qual é sócia em Londrina. No entanto, diz que já teve vontade de buscar outras modalidades de investimento, mas não se sente segura e informada o bastante para arriscar. "No meio do ano passado eu fui procurar saber mais em sites, conheci ferramentas de orientação on-line, mas acabei presa no trabalho e optei pelo CDB, que rende mais do que a poupança", conta.
Um amigo apresentou a Santos uma ferramenta on-line que dá orientações e facilita a escolha de modalidades de aplicação. "Foi em um fim de semana e faltou tempo para eu me sentir segura em arriscar, apesar de o software ser bem fácil de entender", diz a empresária, que pretende buscar uma assessoria neste ano.
Novas opções
O COO (diretor de operações, na sigla em inglês) da Allgoo, Rodrigo Soeiro Ubaldo, afirma que é cada vez mais comum a orientação por robôs para investimentos, usados até mesmo por corretoras. Em muitos casos, o trabalho é todo feito na definição do perfil de investimento. A própria Allgoo tem um programa para corretoras digitais, que não precisam mais focar somente em grande renda e usam o sistema para digitalizar aplicações menores e turbinar a carteira de clientes.
Contudo, a planejadora financeira Juliana Sitta de Queiroz afirma que é preciso que o investidor comum entenda a necessidade de buscar conhecimento e de tomar decisões com base em prazos e objetivos, e não pelo rendimento prometido. "Pode ser um assessor, um agente autônomo, alguém que ajude a alinhar os produtos que a pessoa precisa, diferentemente do gerente do banco, que coloca somente os da instituição onde trabalha", diz, ao lembrar que um planejador financeiro também orienta orçamento, hábitos de consumo e tributação, por um custo fixo e que independe do retorno do cliente.


