Casa Paulo resiste ao tempo e ganha status
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2004
Luka Morais<BR>Reportagem Local 
Você sabe onde encontrar o ''ancestral'' do chuveiro? O primo pobre da quase extinta enceradeira? Chaminé para fogão a brasa? Ferro de passar econômico? Capacho de ferro? Lamparinas e lampiões? Sino? Estes e outros objetos que fizeram parte do passado não muito distante para alguns de nós podem ser encontrados no Centro de Londrina. Quase no cruzamento da Avenida Celso Garcia Cid com a Rua Mato Grosso.
A Casa Paulo, em funcionamento desde a década de 40, ainda hoje mantém nas prateleiras peças que eram vendidas quando o estabelecimento ficava no terreno ao lado. ''Essas panelas de ferro são originais, sem o revestimento escuro'', mostra o funcionário Mário Costa, que há três anos trabalha no local. Até o final do ano passado, o proprietário Felinto Elízio da Costa era o responsável pelo comércio. Ele morreu há três meses, aos 92 anos.
Algumas mercadorias expostas fazem parte da história da família Costa. O ferro à brasa sobre o balcão pertenceu ao proprietário, quando ele tinha uma alfaiataria, em meados de 1930, na Avenida Paraná, como era conhecido o trecho da Celso Garcia Cid. Também histórica é a máquina registradora comprada junto com o estabelecimento que, inicialmente, pertenceu a um descendente de japoneses de nome Paulo. ''Meu pai comprou a casa que vendia de tudo. De secos e molhados, a veneno para rato, roupas e ferragens'', conta o filho Walter Lúcio da Costa, responsável pelo estabelecimento.
Apesar dos objetos antigos, a loja atende um público variado, de donas de casas que vão em busca de panelas, tachos, objetos de decoração a produtores rurais. ''Muitos deles contam que vinham aqui com os pais quando eram crianças'', lembra o funcionário Mário Costa, que faz questão de mostrar peças que são raridades. ''Esse balde-chuveiro você só encontra aqui'', propagandeia, apontando o objeto que é fabricado no Rio Grande do Sul.
O balde-chuveiro, que foi usado na época em que o chuveiro elétrico era inacessível às camadas menos favorecidas, ainda hoje é utilizado em assentamentos, pescarias e acampamentos. O utensílio com capacidade para 18 litros d'água é suspenso com a ajuda de uma corda que passa por uma roldana. Aqueles que já usaram o balde-chuveiro sabem valorizar a água farta que cai a um simples girar de torneira.
Houve um tempo, como lembra o escritor londrinense Márcio Américo no livro ''Meninos de kichute'', ao se referir à vida dos moradores da Vila Nova (área Central), que era possível observar diferenças sociais pela quantidade de água quente despejada no balde. Quem podia mais desfrutava de um banho mais generoso.
Outra raridade encontrada na Casa Paulo é o escovão usado para dar lustro em pisos encerados numa época em que poucos tinham condições de colocar tacos recobertos de sinteco. As donas de casa não imaginavam como a vida seria menos difícil com a criação de laminados, cerâmicas e os revolucionários produtos que dão brilho com um simples passar de pano umedecido.
O escovão, certamente desconhecido pela nova geração, possui cabo de madeira, é feito de ferro fundido e tem uma base de madeira recoberta de cerdas. Basta força muscular e alguns empurrões para garantir a beleza dos pisos.
O funcionário Mario Costa lembra que a casa já exportou escovão para os Estados Unidos. Foi comprado por uma senhora encarregada de encontrar o objeto já quase em extinção para a filha que trabalha com limpeza. O comerciante Walter da Costa acrescenta à lista de produtos ''exportados'' um cilindro de massa, lamparinas e um sino.
O estabelecimento também contribui com o desenvolvimento cultural. Atores de teatro costumam frequentar a casa em busca de peças antigas para compor cenários. A produção do longa-metragem Gaijin 2, filmado em Londrina no início do ano passado, foi responsável pela compra de diversos capachos de ferro, usados para remover o barro vermelho dos pés dos artistas, e de várias lamparinas.
Mario Costa destaca que houve uma época em que o comércio de ferragens era forte na cidade. E que a Casa Paulo chegou a ter uma filial na Mato Grosso esquina com Goiás onde caminhões descarregavam, na década de 90, cargas de arames farpados. ''Hoje, está ruim para todo o comércio. Mas muitas lojas de ferragens acabaram falindo, fecharam'', diz.
O proprietário Walter da Costa comenta que a loja tem bom movimento e que enfrenta as mesmas dificuldades do comércio de modo geral. ''Se as coisas estão bem a gente vende. Quando fica ruim é porque está ruim para todo mundo'', diz. Segundo ele, apesar da diversidade de produtos para a área rural há itens como chapa para forno a lenha que é comprado tanto por pessoas que querem reduzir o gasto com gás, como por condomínios de luxo que apostam numa área mais completa com churrasqueira e forno a lenha.


