Agência Folha
De Brasília
O ministro do Desenvolvimento, Clóvis Carvalho, cobrou ajustes na política econômica comandada por seu colega Pedro Malan (Fazenda), criticou a ‘‘ênfase monocórdica’’ na contenção de gastos e defendeu mais ousadia na adoção de medidas que promovam o desenvolvimento do País.
‘‘Apressar o passo na retomada do crescimento não trará o apocalipse. E o excesso de cautela, a essas alturas, será o outro nome para covardia’’, discursou Clóvis. ‘‘Precisamos ousar mais, arriscar mais – arriscar até o limite da responsabilidade’’, insistiu o ministro.
Pouco antes, Malan voltara a atacar as críticas à política econômica e classificara de ‘‘falso’’ o debate entre os ‘‘desenvolvimentistas’’ e aqueles que estariam mais preocupados com a estabilidade econômica: ‘‘Crescimento depende de horizonte de tempo, de estabilidade e de inflação sob controle’’.
Malan e Clóvis se encontraram ontem na abertura do seminário ‘‘Desenvolvimento com estabilidade’’, promovido pelo PSDB – partido que abriga o presidente Fernando Henrique Cardoso, o próprio Clóvis e políticos que vêm mostrando desconforto com os resultados da política econômica.
Malan não chegou a reagir ao discurso do colega de ministério, cujos detalhes ele anotou enquanto Clóvis falava. Procurado depois pelos repórteres, Malan apenas comentou: ‘‘Somos todos a favor da ousadia’’. As palavras de Clóvis alimentaram ontem as pressões por mudanças na política econômica lideradas pela oposição e encampadas por integrantes da base de apoio do Palácio do Planalto.
Como porta-voz do grupo ‘‘desenvolvimentista’’, o ministro contou com imediato apoio da cúpula tucana, que se diz convencida de que há margem para uma ação mais agressiva do governo em favor do crescimento. O pensamento tucano foi resumido pelo presidente do partido, senador Teotônio Vilela Filho (AL): sem abrir mão da estabilidade, o partido quer resultados mais rápidos da política econômica, como a queda do desemprego. Nenhum tucano pede, pelo menos publicamente, a saída de Malan.
À saída do encontro, questionado se considerava Malan ‘‘covarde’’, Clóvis disse que ‘‘de forma alguma’’ se referira ao ministro da Fazenda. ‘‘É uma referência a uma postura que ninguém no governo aceita ter’’, auto-interpretou-se Clóvis, acrescentando que ‘‘certamente’’ FHC pensava como ele.
‘‘Nós não somos mercadores de ilusões’’, concluiu Malan, renovando críticas aos seus opositores e se apresentando como porta-voz do governo. ‘‘É isso que fizemos, estamos fazendo e continuaremos a fazer’’, disse. No texto preparado de véspera, Clóvis constatou que existem divergências internas na Esplanada e disse que o governo não havia feito tudo o que era possível para combater o desemprego e a desigualdade social. E mais: além de dar razão aos críticos da política econômica, avaliou que a instabilidade política ameaça a estabilidade econômica.
‘‘Ajustes não podem ser entendidos como camisa-de-força para iniciativas voltadas ao desenvolvimento. Da mesma forma que responsabilidade não deve ser sinônimo de timidez nem de conformismo com resultados medíocres de crescimento econômico’’, afirmou.

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