Carro x transporte compartilhado
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de maio de 2018
Mie Francine Chiba<br>Reportagem Local 

Mais de um terço dos compradores de carros (34%) consideram os serviços de compartilhamento de viagens e de transportes solicitados por dispositivos móveis como Uber, 99 e BlaBlaCar - uma alternativa à posse de automóveis. A conclusão é do estudo Cars Online Report, da consultoria Capgemini, que entrevistou 8 mil consumidores em todo o mundo, inclusive no Brasil. O índice ainda é pequeno face à proporção de pessoas que consideram essas opções complementares à posse de um carro (56%). No entanto, a consultoria considera que os aplicativos de compartilhamento de viagens e de transporte ganharão mais espaço, levando a uma mudança na estratégia dos principais fabricantes de veículos.
"Os aplicativos vão ganhar ainda mais relevância, e não apenas como uma alternativa, mas também como uma opção real a aquisição dos veículos. A partir de uma maior consolidação do segmento, seja em número de players, em qualidade, abrangência e capilaridade dos serviços, a ideia de posse de um veículo se tornará mais frágil", comentou André Santana, diretor da Capgemini no Brasil.
Para Santana, custo, praticidade e outros fatores fazem os aplicativos serem atrativos para os consumidores. "No Brasil, o custo é um fator importante nessa equação, e não apenas o custo de aquisição como o de manutenção dos carros. Ainda mais em um cenário que ainda convive com os reflexos da crise econômica. Assim como fatores como praticidade, dinamismo e menor desembolso, inclusive na comparação com os táxis comuns, são atrativos para o uso dos aplicativos e acabam tornando a posse do carro algo não tão necessário."
A digital influencer Luana Kohata deixou de usar o carro para adotar o Uber e caronas como forma de transporte. Quando pode, também anda a pé. "Foi porque vi que não vale a pena sair de casa e ficar sujeita a muitas coisas. Pode valer a vida de alguém, a nossa vida. Se acontece alguma batida, tem que pagar, sem falar nas multas a que estamos sujeitos. E como estou sempre correndo, não consigo me concentrar em uma coisa. Também tem IPVA, licenciamento do carro, gasolina, não compensa." Recentemente, a influencer sofreu um acidente de carro. Nada grave, mas que só reforçou a sua decisão. Para ela, o surgimento de aplicativos como o Uber popularizou o transporte. "É super acessível. Você paga com cartão, dinheiro..."
'CULTURA DE AQUISIÇÃO'
Por outro lado, ainda existe entre as pessoas o desejo de possuir carros, opina André Santana, da Capgemini. "Ainda existe uma cultura muito forte de aquisição quando falamos no segmento automobilístico, mesmo com as novas modalidades de transportes alternativos, como os aplicativos do tipo Uber, ganhando espaço. Em uma cidade como São Paulo, por exemplo, que convive com problemas nos transportes públicos há décadas, a ideia de possuir um carro para se locomover ainda faz sentido e acaba sendo um componente importante na cultura local."
O percentual de pessoas que veem os serviços de mobilidade como complementares à compra de um automóvel aumenta entre os clientes mais jovens, entre 18 e 34 anos (64%) ou baseados em mercados emergentes como China (77%) e Índia (63%).
SISTEMAS DE COMPARTILHAMENTO
Mesmo assim, o estudo da Capgemini aponta uma mudança na estratégia dos principais fabricantes de automóveis, que já começam a investir em serviços de compartilhamento de veículos. Para Santana, o investimento em plataformas como essa pode ser uma oportunidade para as empresas amenizarem as possíveis perdas nas vendas de automóveis. "Essa é uma estratégia em que todos saem ganhando, já que alguns consumidores podem usar o serviço para 'test drive' de um carro antes de fazer uma compra, enquanto outros exploram seu desejo por 'algo novo', utilizando modelos que eles ainda não conhecem para dar uma volta."


