Carnê odontológico compromete saúde bucal
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sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Marcelo Rezende<br> Agência Estado 
São Paulo - Há 20 anos, a profissão de dentista era vista pela sociedade como uma das mais lucrativas, ficando atrás apenas de médicos e ao lado de advogados e engenheiros. Já havia, naquela época, profissionais que se dedicavam apenas a atender a população de baixa renda. Geralmente, usavam seus parcos conhecimentos e materiais de segunda mão para atender às necessidades imediatas de seus pacientes - provocando um ''boom'' de extrações nas classes C e D, que acabou ficando desdentada antes da hora e partindo para o uso da dentadura.
Poucos anos depois, o cenário foi perdendo o viço. Afinal, com a inflação em alta, a primeira coisa que as famílias faziam era ''cortar o dentista''. O resultado disso foi que milhares de jovens profissionais ou mesmo recém-formados passaram a integrar um grupo em que havia mais mão-de-obra disponível do que demanda. E a crise se instaurou no segmento odontológico. Cuidar dos dentes passou a ser considerado ''coisa de gente rica''.
Algumas empresas odontológicas e uma parcela ínfima de bons profissionais, entretanto, continuaram apostando e investindo ainda mais nesse mercado, aproveitando a onda do marketing pessoal e da valorização da beleza. Perceberam que se a cirurgia plástica - que era, em princípio, mais supérflua ainda - estava ''bombando'', de nada adiantava a pessoa ficar com um corpo escultural se não poderia abrir a boca sem constrangimentos.
Hoje, o cenário está mais incrementado. Se, por um lado, há bons profissionais no mercado, que oferecem um serviço bem feito e investem em tecnologia de ponta, por outro lado as empresas de odontologia de grupo acabaram ocupando um espaço deixado por aqueles profissionais dedicados a atender quem não tinha recursos para pagar o tratamento.
Por mais que a popularização da odontologia represente um ganho enorme para a sociedade, há sempre o risco da sua banalização - o que tem se tornado um dos principais entraves para a maioria dos profissionais experientes. Não propriamente aqueles que atuam nas altas esferas, como ''dentistas das estrelas'', mas aqueles que vêm investindo na capacitação, participando de congressos internacionais, buscando atualização e excelência do serviço prestado.
Esses cirurgiões-dentistas que se fizeram à custa de muito esforço e que mantêm suas clínicas dentro de todas as normas exigidas pela Associação Brasileira de Odontologia e pelo Conselho Federal de Odontologia formam um grupo profissional altamente competente, mas que se sente completamente acuado por um mercado devastador. Isto sem falar nos riscos a que os clientes, ou seja, os pacientes estão sujeitos.
A sedução por um anúncio de página inteira que oferece a boca dos sonhos em troca de um carnê com 36 parcelas, ou ainda planos de tratamento com pagamentos a perder de vista, põe em risco não só uma classe inteira de profissionais competentes e sérios, mas, principalmente, a saúde do povo brasileiro. Ninguém sabe quem são os responsáveis por esses estabelecimentos ou mesmo o nome e a formação dos cirurgiões-dentistas que realizarão todas aquelas intervenções descritas no anúncio.
Essa prática está pondo fim a uma das relações mais próximas dentro do sistema de saúde, que é a médico/dentista com o paciente. Profissionais respeitados nacional e internacionalmente persistem em seus projetos de odontologia de ponta, investindo no que a ciência tem de melhor para garantir mais saúde, bem-estar e qualidade de vida a seus pacientes.
Afinal, não são poucas as pessoas que preferem contar com profissionais comprometidos com o resultado a longo prazo a optar pelos carnês odontológicos, independentemente do profissional responsável pelo atendimento.
Lamentável, nessa situação de mercado, é notar que há tantos dentistas talentosos perdendo pacientes para um inimigo oculto chamado ''promoção''. E mais grave ainda é saber que não há muito a ser feito, já que essas empresas estão altamente protegidas do ponto de vista jurídico, além de seus donos serem grandes investidores, não dentistas.
Marcelo Rezende é cirurgião-dentista, especialista em implantes dentários, diretor da Smiling Dental Care (Manaus, AM), e membro da Sociedade Brasileira de Odontologia Estética.
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