Capitalismo intelectual - Gilclér Regina
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de outubro de 1997
Gilclér Regina 
Em empresas que exigem investimentos intensivos em conhecimento, não fica claro quem é o dono da empresa, de suas ferramentas e de seus produtos. O descendente moderno do Senhor Ricaço, aquele que tinha uma idéia para criar uma empresa e transformava seu dinheiro em uma fábrica, começa com uma contribuição inicial feita por algum capitalista de investimentos. Aluga espaço para escritórios em algum centro empresarial e não é dono de fábrica nenhuma, como era o Senhor Ricaço, aquele mesmo que contratava um executivo para administrar, que por sua vez contratava operários para as máquinas, pagava a todos e ficava com os lucros. E se as coisas iam mesmo bem, no final do ano até oferecia um ganso e uma sidra para assegurar o almoço de natal do pessoal.
Hoje o capitalista intelectual contrata alguém em Taiwan para manufaturar seus produtos e a única planta que a empresa possui são os computadores, as mesas e talvez uma máquina de Coca-Cola. O Senhor Ricaço comprou os ativos de sua empresa, mas não está claro quem faz os investimentos dos quais depende o capitalismo intelectual, os investimentos em pessoas.
O executivo estudou administração de empresas, pagando ele mesmo seu curso. O trabalhador paga o curso de Eletrônica que faz à noite, mas sabe que, quando concluir, a empresa vai reembolsá-lo em metade do custo. Cada executivo e cada funcionário recebem opções de ações e juntos podem possuir tantas ações quanto os capitalistas.
Essa mudança põe de pernas para o ar a natureza e a administração de empresas. O capital humano é o lugar onde se iniciam todas as escadas, as fontes de inovações. O dinheiro fala, mas não pensa. As máquinas trabalham, muitas vezes muito melhor do que quaisquer ser humano poderia trabalhar, mas não criam. No entanto, pensar e criar são ativos dos quais dependem o trabalho de conhecimento e as empresas de conhecimento. Enxergar isso é já estar escrevendo o futuro agora.
Como diz Michael Brown, principal executivo da Microsoft: A participação acionária de funcionários constitui um exemplo revelador de como a era da informática transformou a natureza da empresa. Isso quer dizer que, há 15 ou 20 anos atrás, a pessoa era funcionária ou desempregada. Hoje em dia, as opções são muitas. As pessoas são donos, gerentes executivos, e funcionários, às vezes todas as três coisas ao mesmo tempo.
Bill Gates somente abriu o capital da empresa para ter com quem compartilhar o patrimônio, ou seja, seus funcionários. E diga-se de passagem, seu salto foi fantástico. Sabe-se que a Microsoft nunca precisou contrair débitos de longo prazo, portanto, nunca precisou de dinheiro. Não é à toa que o Bill se transformou no homem mais rico do mundo. Afinal, para ele, que é o sinônimo de criador de programas de máquinas, capital humano e intelectual é muito mais importante.
- GILCLÉR REGINA é consultor de empresas, autor do livro No Topo do Mundo - Motivados para Vencer e membro da ASQC/American Society for Quality Control


