CAPITAL DE GIRO
RUTH MEIRA
A ONDA DO MICROCRÉDITO

Ilustração (Ivo)
O desemprego galopante no mundo inteiro está acordando os governos, instituições financeiras e organismos internacionais para a importância dos pequenos negócios, os microempreendimentos. São os quiosquezinhos da esquina que abastecem a vizinhança de pastel e vitamina, o vendedor de cachorro-quente que ganha a vida alimentando transeuntes apressados e ‘‘quebrados’’, a costureira que tem na sala de estar o seu chão de fábrica e ‘‘emprega’’ outras duas vizinhas como auxiliares.
Até muito pouco tempo, essa categoria de empreendedor não tinha esse título e muito menos chance de levantar capital nos bancos comerciais para tocar ou ampliar o negócio. Sem imóvel para oferecer em garantia, conta corrente na rede bancária e nem avalista na retaguarda, tinha que se contentar com a pequena renda obtida com a atividade.
Isso começa a mudar. Em agosto, um congresso internacional vai discutir em Brasília o modelo dos ‘‘bancos do povo’’ e ‘‘casas de empreendedores’’, reunindo autoridades da equipe econômica, representantes de órgãos como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e entidades voltadas aos direitos humanos. Diretores da instituição pioneira no mundo, o Grameen Bank, de Bangladesh, participam. O Grameen é um exemplo de que se pode ser grande servindo aos pequenos - tem ativos da ordem de US$ 4 bilhões, cinco milhões de correntistas e duas mil agências. Também vão estar presentes no encontro representantes do primeiro banco brasileiro especializado nesse setor, o Microbank.PEQUENA AJUDA, GRANDES
RESULTADOS
Em alguns países, o microcrédito é uma solução já consagrada. Prefeituras de diversas cidades brasileiras, como Londrina, também já têm lançado mão de agências nessa linha de atuação. Pequenos valores são financiados a juros baixos e com prazos médio e longo para pagamento. Entre as vantagens, estão a dispensa de garantias convencionais exigidas pelo sistema financeiro. E mais que isso: o candidato ao empréstimo escapa do constrangimento de sentir-se discriminado diante de um gerente acostumado a negociações mais polpudas. Se a cabeleireira da periferia acha que aumentaria as suas vendas equipando melhor o seu salão, pode pleitear R$ 200, ser atendida sem muita burocracia e pagar o empréstimo em prestações e com carência compatíveis ao valor financiado.
Em um país como o Brasil, onde o mercado informal é fio terra da economia, impedindo tensões trabalhistas mais graves, os bancos dos pequenos só podem ter campo fértil. Entre as cidades em que o microcrédito já é realidade está Porto Alegre. O projeto ‘‘Portosol’’, criado em 1996 numa parceria da prefeitura com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), já fechou 5 mil operações e projeta entrar pelo segundo milênio com 25 mil contratos.MODELO LONDRINENSE
Em Londrina, a Casa do Empreendedor, também uma parceria da prefeitura com o BNDES, completa seis meses de operações nesta segunda-feira. E tem servido de modelo para outras prefeituras. Em pouco mais de 4 meses, fechados em 31 de março, a agência liberou R$ 494 mil para 222 clientes. Alguns deles já começam a pagar os financiamentos e realimentar a agência de recursos para que outros pequenos empreendedores tenham acesso a capital fixo (com limite de financiamento de R$ 10 mil) e de giro (limite de R$ 5 mil).
A média de financiamentos nesse semestre de estréia foi de R$ 2.228,56 e seis contratos já foram liquidados pelos pequenos empresários, informa a Companhia de Desenvolvimento de Londrina (Codel). A cada mês tem sido fechada a média de 50 a 60 contratos, com a boa notícia: até agora não houve um caso sequer de inadimplência. Mas é preciso levar em conta que as carências dos primeiros contratos estão começando a vencer e só agora será possível avaliar a capacidade de pagamento da clientela. Apesar do nível zero de calote, já há renegociação de contratos porque alguns tomadores de dinheiro alegam dificuldades para o pagamento.
A Casa do Empreendedor de Londrina está fechando o balanço do semestre de estréia em equilíbrio. Teve despesa operacional fixa de R$ 20 mil e receita mensal equivalente. Ou seja: cumpriu a função social de atender os pequenos empreendedores, sem ganhar nem perder, diz o vice-prefeito Alex Canziani. Segundo ele, o Fundo de Desenvolvimento de Londrina, que destinou R$ 1 milhão para a agência, bancou sozinho até aqui os financiamentos. Mas o BNDES deverá consumar a parceria anunciada na época da instalação e aportar outro R$ 1 milhão na agência ainda este mês, em um reforço de caixa que vai viabilizar novos financiamentos.
Ilustração
‘‘O crédito é o único testemunho duradouro da confiança do homem no próprio homem’’
James Blish

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