Capital de Giro (Ruth Meira)




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Fernando Henrique: navegação


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Delfim Neto: sacerdotes


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Pedro Malan: soco no peito


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Sérgio Arouca: artistas



PROFECIAS EM RETROSPECTIVA
A manchete da Folha no primeiro dia do ano passado era otimista: ‘‘FHC diz que 97 será o ano do emprego’’. Deixando de lado a taxa de inflação - que encerrou os doze meses acumulada em 7,74%, segundo o IGP-M, confirmando o prognóstico oficial - era uma entre tantas profecias do governo federal que não vingaram. O presidente vaticinou a reação do nível de emprego enquanto descansava, em férias, na ilha de Fernando de Noronha. Mas, não tão confiante na precisão da bola de cristal, avisava: ‘‘Se eu errar, me critiquem’’. Segundo explicou, ‘‘economia não é uma ciência do tipo exata, é uma espécie de navegação. Nós temos evitado os bancos de areia. Não encalhamos, isso é que é o principal. Estamos tocando o barco’’. Os resultados oficiais sobre o comportamento do mercado de trabalho em 97 ainda não saíram, é verdade, mas as estatísticas são dispensáveis diante do que assistimos ao longo do ano, ao vivo e em preto e branco.
Ainda relembrando, o ministro da Fazenda Pedro Malan iniciava o ano irritado com críticas à política econômica e com os ‘‘profetas do apocalipse’’ que insistiam em imaginar um déficit da balança comercial para o ‘‘novo ano’’ em torno de US$ 8 bilhões. ‘‘Isso é pura adivinhação’’, resmungou em reportagem publicada na Folha no dia 22 de janeiro de 97. O gerente do dinheiro público esbravejava também com as reiteradas perguntas sobre possíveis ajustes no câmbio. ‘‘Já me perguntaram isso 39 vezes, e 39 vezes eu neguei. Não, não vamos fazer mudanças radicais no câmbio. Isso é discurso de quem gosta de acordar o leitor de manhã com um soco no peito’’, atirou. Promessa cumprida, é preciso admitir. Já quanto ao déficit da balança comercial, o próprio ministrou encerrou o ano estourando champanhe para festejar um rombo perto de US$ 8,6 bilhões. Os analistas-adivinhões triscaram a mosca.
Mas as autoridades são às vezes proféticas. Ao imaginar um futuro positivo para o mercado de trabalho, Fernando Henrique já dava a receita do sucesso: ‘‘O que gera desemprego é a falta de dinamismo e de capacidade de redução do custo Brasil’’. Verdade. O País encerrou o ano com os juros mais altos do planeta, o que, é sabido, arrasa a competitividade da empresa brasileira, atrofia a produção nacional, empurra trabalhadores para as filas de emprego. Qual foi a grande novidade no final de 97? Os acordos históricos entre sindicatos de metalúrgicos e patrões para a redução de jornada de trabalho e salários - tudo para afastar o fantasma do desemprego, que terminou o ano como começou: rondando os que têm carteira assinada.
Malan também tinha a lição na ponta da língua quando os ‘‘arautos da catástrofe’’ preocupavam-se com o déficit em conta-corrente. Segundo ele, isso era decorrente do excesso de investimentos externos e, além do mais, dizia, era uma conta absolutamente financiável. Para responder a esse problema, o ministro explicava em reportagem no dia 21 de dezembro de 96 que era preciso aumentar a poupança privada e reduzir os gastos do setor público. Simples. Mas como aumentar a poupança privada - se pergunta o brasileiro que passou o ano fazendo malabarismo para fechar seu orçamento sem registrar ‘‘déficit’’? Já quanto aos gastos públicos, o governo só ameaçou se mexer quando sentiu os estilhaços do crash mundial - ainda assim no último trimestre do ano. Antes disso, a máquina federal manteve a velha rotina: gastou mais do que arrecadou.
Avaliando o ano que se encerrava - 96 -, o economista Delfim Neto reconhecia em artigo no dia 22 de dezembro os méritos do governo em reduzir a inflação, mas ‘‘a custos altos impostos à legião de excluídos, não lembrados no reveillon dos inseridos’’. E dizia que, toda vez que o nível de atividade econômica brasileira começava a se expandir, tinha que ser contido por causa do déficit da balança comercial. Resultado: o crescimento econômico e o nível de emprego no Brasil, segundo ele, têm pago a conta da inflação domada. Outra: sem um sólido programa de redução de despesas e ainda com juros altos (que dispararam no final de 97), o governo não teria como financiar o déficit público. ‘‘Essa política econômica nos condena ao baixo crescimento e à eternização do aumento do desemprego’’. O tempo comprovou o raciocínio.
O governo estava cauteloso nas previsões para 97 - dizia Delfim - porque tinha consciência de que o comportamento da economia brasileira dependeria cada vez mais dos humores do mercado internacional. ‘‘A corrente mais forte do governo, a do Banco Central, está atrelada a esses humores. São os sacerdotes da teologia da especulação, que fazem a opção preferencial pelo sistema financeiro em detrimento do produtivo’’. O furacão das bolsas provou a tese.
Pelo menos o deputado federal Sérgio Arouca (PPS-RJ) reconhecia - também em artigo na Folha sobre promessas mal cumpridas -, uma habilidade das autoridades brasileiras: ‘‘São artistas na prática de sofismar’’.

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