Capital de giro (Ruth Meira)
Capital de giro (Ruth Meira)
Arquivo FolhaNos países desenvolvidos, multidões aplicam suas sobras nas bolsas, caminho mais curto para multiplicar dinheiro: o Brasil vai nesse rumoAs bolsas, como os aviões, são cem por cento seguras. Todo avião que sobe, desce - Joelmir BetingENTRANDO EM AÇÃO
Apesar dos momentos de terror noticiados mundialmente nos últimos dias com a trajetória das bolsas - ladeira abaixo - esse é um mercado que promete explodir no Brasil nos próximos anos. Foi assim nos países desenvolvidos a partir dos anos 80. Com a privatização de megaempresas e a abertura econômica, as bolsas passaram a ser opção de investimento para todo mundo - do trabalhador que tem R$ 1.000 de sobra no fim do mês e quer ver seu patrimônio evoluir ao bilionário interessado em multiplicar sua fortuna sem fazer força.SEM ELITISMO
O mercado brasileiro prepara-se para essa popularização dos investimentos em renda variável. Na Europa, quando estatais passaram para as mãos da iniciativa privada, o número de acionistas decolou de 3 milhões para 11 milhões. Nos Estados Unidos, hoje, calcula-se que um quarto da população aplica as suas sobras no mercado de ações. Isso deverá se repetir por aqui, apostam, convictos, analistas de mercado. A aposta é tão certa que começam a se multiplicar empresas especializadas em administrar as aplicações em nome dos simples mortais, que desconhecem as manhas e humores do mundo dos pregões.GOSTO PELO RISCO
Fabiano Castellazzi, sócio da Portfólio, está há dois anos nesse ramo em Londrina, atendendo pessoas físicas interessadas em arriscar seus pequenos ou grandes capitais. E o número de aspirantes a acionistas é crescente, diz ele. Ainda mais agora, com a inflação domada e com índices de poupança e rentabilidade dos fundos de renda fixa aparentemente pouco atrativos. Mas Castellazzi não acha que a baixa espetacular das ações vai assustar os pequenos que começavam a se interessar pelo grande cassino financeiro.
Crise é sinônimo de oportunidade, lembra. Se houve queda, isso significa que os preços das ações ficaram mais baixos, mais realistas. E ficarão mais convidativos para quem vai comprar, se a idéia for investir a longo prazo. A Portfólio realiza workshops para quem está interessado em virar acionista - os cursos são oferecidos às terças, quintas e sábados e duram de 2 horas a 2 horas e meia. Nos dias de semana, o aluno acompanha, on line, o pregão da Bovespa. O custo é de R$ 55.A PERDER DE VISTA
Exige-se mesmo algum conhecimento e muita paciência de quem quer se aventurar nesse universo. Economistas não têm se cansado de repetir nos últimos dias que o momento não é para movimentos: quem já entrou na ciranda das ações, deve permanecer lá, sem precipitações; quem não entrou e está disposto a correr o risco de ganhar mais dinheiro, deve esperar. Mas o conselho é sempre o mesmo: se o objetivo é ganhar dinheiro rápido, a alternativa deve ser outra. A questão é, portanto, de horizontes: bolsa só é opção de médio e longo prazo. E ponto final.BOLA DE CRISTAL
O assessor financeiro Hélio Lot, dono da Investidor Global, de Londrina, reforça a recomendação de cautela. É simplista, afirma, concluir que o mercado está bom para a compra porque as ações ficaram mais baratas. A análise gráfica, na terminologia do especialista, mostra que foi quebrada a tendência de alta. Podem haver algumas correções técnicas após quedas tão acentuadas, mas não há tendência de recuperação em curto prazo. Se houvesse, comprar seria uma boa estratégia, afirma. Esse diagnóstico já era transmitido aos clientes da empresa no último dia 20, diz Lot. Ele também percebe um aumento cadenciado do interesse de investidores pelos mercados de risco e diz que a sua empresa prefere operar com o sistema de carteira administrada. Os perigos são menores porque podemos ser mais ágeis, evitando prejuízos, diz.CORRENTE DA FELICIDADE
Agora mesmo, quando chora pela queda das bolsas uma legião de investidores - liderada por Bill Gates que numa só tacada ficou US$ 1,6 bi mais pobre - é preciso lembrar que o mercado mundial de ações vinha em franca escalada. Gates já havia ganho muito mais na mesma roda da fortuna. Os investidores brasileiros também têm a comemorar. Este ano, apesar do furacão asiático, a Bolsa de São Paulo registrava (até terça-feira) ganho de 48,4%. A Bolsa do Rio, 48,12%. Os que compraram ações e deixaram os papéis quietinhos nos últimos 12 meses têm ainda menos a reclamar: nesse período, a bolsa paulista ganhou 63,21% e a carioca, 93,43%.NEGÓCIOS DA CHINA
Para quem não quer nada com os altos e baixos das bolsas de valores, vale o recado de ficar muito atento nos próximos dias - não aos índices de fechamento dos pregões, mas aos juros dos crediários. Para convencer o investidor estrangeiro a manter o seu rico dinheirinho em território brasileiro, o Banco Central elevou os juros. Isso, combinado com certa nostalgia de altas súbitas, está fazendo o varejo mexer nas taxas e encarecer os financiamentos. Promessa de Natal inflacionado.





