Capital de giro (Ruth Meira)
Aos trancos. É assim que o comércio tem funcionado, passada a euforia do Real. A festa do consumo do início do Plano, no segundo semestre de 94, cedeu à realidade e, nos anos seguintes, os números do setor entraram em descendente. Resultado: hoje o varejo funciona aos surtos e sustos. Se não fossem as datas comemorativas que se sucedem ao longo do ano, os balanços seriam ainda mais vermelhos.
Lojista do setor de importados em Londrina, Kentaro Takahara diz que este ano de 97, particularmente, está sendo de difícil travessia para o setor. Em 95 o movimento já caiu em relação ao ano anterior, o que se repetiu em 96 e agora mais ainda em 97. Para fazer os números do ano passado, é preciso suar, diz. Resultado: o comércio agarra-se aos dias especiais, recobra o fôlego nestas ocasiões e tenta sobreviver até a data comemorativa seguinte.
No início do ano, o consumidor se vê às voltas com os gastos de férias e reabilita as agências de turismo, oficinas de carros, lojas de departamentos. Em abril, a Páscoa. Quem nunca vende chocolate, recheia as prateleiras com bombons e pega carona na onda doce para fazer caixa. Maio é quase um Natal em movimento de vendas - as mães fazem a alegria de lojas de roupas, calçados, perfumes, eletroeletrônicos, flores, móveis, decorações, restaurantes. Cabe todo mundo. Junho também não costuma decepcionar: a vez é dos namorados, mas o comércio é que encontra na data um sopro para atravessar a entressafra de vendas. Agosto, dia dos pais, leva o consumidor às lojas, mas tem efeito setorizado. Não é todo mundo que consegue movimentar as registradoras nesta época. Outubro, sim, promete e geralmente cumpre: redes de departamentos, lojas de brinquedos, pequenos bazares, sacoleiros e ambulantes trabalham dobrado e matam saudades do lucro. Daí então já é tempo de Natal - a safra do varejo, que a cada ano começa mais cedo.
O consumidor cai nessa roda de consumo meio sem alternativa e vai se segurando na base do crediário, comprando no dia das mães para pagar no do pais, presenteando as crianças em outubro com o dinheiro virtual do 13º. Um consumo compulsório, que incha as estatísticas de inadimplência. Takahara concorda: o lojista hoje que se sustenta na velha política do preço e prazo tem os dias contados. Não adianta vender rios de dinheiro e não receber. A receita da sobrevivência, sabida mas nem sempre seguida, é a que conjuga mix de produtos inteligente, bom padrão de atendimento, produtos de qualidade. Só com o apelo financeiro, o lojista desova os estoques e comemora o estouro de vendas por pouco tempo - só até receber de volta o primeiro cheque pré-datado. Um tiro no pé.
Falar em criatividade nos negócios começa a soar repetitivo, mas esta é, na prática, uma imposição do momento. No dia das crianças, por exemplo, a proprietária de uma loja de bijuteriais em Londrina - atividade que habitualmente não se beneficia da data - enriqueceu o seu estoque com produtos específicos para meninas. Vendeu mais do que no dia dos namorados, data forte para o segmento. O estoque planejado deu resultado, surpreendendo a empresária. Fiquei espantada com tanto movimento. Escolhi as peças a dedo, e deu certo, comemorou. É a senha: cada um a seu modo e na proporção do seu negócio precisa encontrar, com sensibilidade e conhecimento de mercado, o caminho. Todo santo dia. É uma arte, nota Takahara.





