Capital de Giro (Ruth Meira)
Capital de giro (Ruth Meira)
Paulo WolfgangRoberto Florentino da Silva, consultor: O comodismo já não é mais coerente com a realidade do mercadoO MAL DA EXCLUSÃO
Empresas e empregados vivem momentos parecidos, na opinião do consultor londrinense Roberto Florentino da Silva, autor do livro Qualidade & Empregabilidade - A arte de sobreviver no mercado. O trabalhador vive o drama da escalada do desemprego e, as empresas, o desafio de se firmar em um cenário cheio de novidades, mais competitivo e muito seletivo. O consultor respondeu algumas perguntas sobre como vê essa que é a grande preocupação do planeta neste fim do milênio: como não ser excluído do sistema de produção. Acompanhe:
Para preservar um emprego ou melhorar as chances de colocação no mercado de trabalho, muita gente investe em dezenas de cursos, como informática e idiomas, num esforço para aumentar a sua empregabilidade. Na prática, isso funciona?
Roberto - O trabalhador tem que saber o que quer fazer, para onde quer ir. De nada adianta especializar-se em uma técnica de informática, por exemplo, se isso não vai ter aplicação na sua atividade. Hoje em dia se fala muito da importância de dominar inglês e espanhol para o sucesso profissional. É verdade. Mas se você não vai atuar na área de comércio exterior, por exemplo, ou se a sua função não requer esse tipo de conhecimento, não há utilidade concreta para ele. Claro que atualização e cultura são sempre importantes. Mas é preciso ter o que chamamos de visão de futuro, saber o que se pretende fazer, o que se quer fazer, onde chegar. Aí, sim, o profissional passa a buscar os instrumentos que serão realmente úteis e necessários ao seu desempenho e crescimento.
O trabalhador vive a angústia de perder o emprego e ter que se lançar em um mercado pobre em oportunidades. Como reagir a essa situação?
Roberto - O trabalhador precisa ter em mente que ele deve ser útil às pessoas dentro do sistema produtivo. Empregabilidade é isso, a capacidade de empregar o seu trabalho. A pergunta que se deve fazer é: quem precisa do quê? E o que eu sou capaz de fazer nesse campo? Tanto para procurar um emprego, manter-se nele ou abrir um negócio próprio, não se pode perder de vista o conceito de utilidade. É preciso indagar-se sobre o que pretende fazer daqui dois, cinco, dez anos. A pergunta é: o que as pessoas podem desejar amanhã? Empregabilidade é, na verdade, autoconhecimento. E, claro, conhecimento do que os outros necessitam. Se a empresa moderna tem que estar atenta, todo o tempo, para os produtos e serviços que o mercado vai absorver, o trabalhador tem o mesmo desafio. Ser empregável é oferecer resposta às necessidades dos outros. O profissional que consegue detectar as necessidades do mercado, pode adaptar o seu produto trabalho, aprimorá-lo e oferecê-lo como solução a problemas específicos.
Nesse sentido, administrar uma carreira profissional e um negócio próprio são tarefas parecidas?
Roberto - O comodismo não é mais coerente com a realidade do mercado. Não há mais lugar para o profissional especializado em administrar problemas e gerenciar desculpas. O que se pede, hoje, são soluções, respostas aos problemas que surgem. E isso vale tanto para quem abriu uma empresa como para quem tem um emprego. A carreira é um negócio próprio. Ser empregável é descobrir anseios e oferecer respostas a eles. Se uma empresa competente é a que sabe identificar as necessidades das pessoas com as quais interage e trabalha para satisfazê-las, com o profissional acontece o mesmo. Quem poderia supor, há alguns anos, a proliferação de lojas 24 horas, escritórios de conveniência, cestas de café matinal e outras tantas necessidades que foram criadas? Os pioneiros nesses serviços estavam atentos e aproveitaram as primeiras oportunidades, arriscando-se em mercados desconhecidos. Quantos outros mercados estão se abrindo hoje para novas necessidades?BÊBADOS E STATÍSTICAS
As estatísticas sobre desemprego são perigosas, alerta o professor Umberto Romagnoli, da Universidade de Bologna, na Itália, que participou esta semana em São Paulo de um seminário internacional sobre flexibilização do emprego. Elas são usadas de forma incorreta, como os bêbados fazem com o poste - para se sustentar e não para ter iluminação.
Romagnoli tem dúvidas sobre a eficácia das medidas que flexibilizam o trabalho e acha que alguns empresários usam a estratégia como se fosse uma droga: Quanto mais se dá, mais eles querem. O especialista em Direito do Trabalho diz que não é contra a desregulamentação, mas defende uma reforma nas legislações de proteção ao trabalhador, que apóie quem realmente precisa de tutela e evite gastos da máquina pública e judicial com quem não precisa de proteção. Para ele, a Justiça está obesa de leis de proteção a trabalhadores que não precisam disso. Emagrecê-la significaria economia de dinheiro e de pessoal, que poderiam ser utilizados em políticas ativas de criação de empregos.





