Capital de giro (Ruth Meira)
UERRA À GARRAFA AZUL
Arquivo FolhaProduto paranaense: perdas com a concorrência
fraudulenta e ganhos com a popularização da bebidaOs ares de abertura trouxeram competitividade para a economia brasileira, traduzida em preços mais baixos para o consumidor em muitos segmentos, mas também despacharam para o Brasil grandes contêineres de porcarias. A roupa chinesa mostra bem o que significa para um país abrir as suas fronteiras sem controle nem critério. Outro setor que sofreu com a invasão dos produtos estrangeiros classe C foi o de vinhos, que consegue agora uma vitória digna de brinde. A bebida importada só poderá entrar no Brasil com registro. Como fazem, sabiamente, os outros países quando a indústria nacional quer colocar o seu produto no mercado externo.
O Ministério da Agricultura anuncia que está analisando o registro de 1.127 produtores de vinhos estrangeiros que pretendem rechear as nossas gôndolas. Os pedidos aumentaram a partir da publicação da portaria que exige o cadastramento do produto e do produtor no ministério. Esse procedimento já era adotado por alguns importadores, que faziam questão da garantia do governo brasileiro no rótulo do produto. Mas agora não se trata mais de opção: todos estão obrigados ao registro.
Tânia Maria Serra, gerente comercial da vinícola Intervin, de Maringá, prevê o fim da concorrência desleal nessa área. Alguns vinhos com rótulo alemão entravam no País e chegavam ao consumidor final por até R$ 2. Como é que uma bebida de boa qualidade cruza o oceano e chega aqui a esse preço? - intriga-se. O pior é que, como santo de casa não faz milagre, o consumidor brasileiro acabava preferindo um produto inferior, porque era de fora, e desprezava boas marcas nacionais que custam pouco mais, ela diz. Prejuízo para a indústria nacional? É verdade. Mas há também um aspecto positivo, em sua opinião. Sabe que isso ajudou a popularizar o consumo de vinho no Brasil? Agora, com a entrada de bons produtos, poderemos concorrer em condições justas tendo um mercado maior, avalia. Com o fim da festa que vinha arrombando o setor nesses últimos cinco anos, a indústria maringaense - que trouxe do Baixo Alentejo a tecnologia para produção de vinhos de qualidade - anima-se e já prepara um lançamento para aumentar a família de oito produtos. A gerente comercial diz que a empresa detectou uma lacuna no setor - faltam tintos de mesa de qualidade superior - e coloca no mercado, nos próximos meses, o seu nono produto.
O Rio Grande do Sul, berço da produção vinícola brasileira, abriu guerra contra a invasão - não dos importados, mas dos falsificados - quando os números começaram a tomar proporções preocupantes, em 95. Antes da abertura, o Brasil consumia de 15% a 20% de vinhos estrangeiros. A partir de 91, essa participação saltou para 30% e o que se viu foi a escalada do garrafa azul - 70% dos vinhos de fora chegam ao País nessa embalagem e com rótulo da Alemanha, muito embora grande parte seja produzida na África e sul da Itália. Esse campeão de vendas teve trajetória meteórica: expansão de quase 500% no mercado brasileiro no período de cinco anos - entre 91 e 96. Houve casos, até, de vinhos que vinham encorpados com álcool metílico (proveniente da madeira), uma ameaça à saúde de quem consome. A fiscalização promete agora coibir os abusos da ressaca da abertura e deixar o mercado livre para a concorrência que se quer: franca e aberta.
O mercado de vinhos no Brasil tem um potencial de crescimento respeitável. O consumo por pessoa no País é um dos menores do mundo: 1,77 litro por ano, segundo a Organização Internacional do Vinho, a OIV. Os nossos vizinhos argentinos ingerem em média, no mesmo período, 43,95 litros. Na Itália, 62,78. Na França, 63 litros. Para bons produtores, nacionais e estrangeiros, pode estar aí um campo de futuro.BEABÁ
DO VINHO
Conheça algumas expressões do universo dos enólogos
qVinho jovem tem aroma; vinho envelhecido tem bouquet.
qO aroma pode ser débil, neutro, pobre, perfumado.
qVinho sadio é franco, reto de gosto, leal.
qVinho alterado é duvidoso, avinagrado, acético. Vinho que sofre arejamento é apagado, batido, golpeado.
qO vinho tinto pode ser velho, decrépito, passado.





